Quase quatro décadas depois, o acidente com césio-137 em Goiânia voltou ao centro das atenções com Emergência Radioativa, série da Netflix lançada no mês passado. A produção revisita a tragédia de 1987 — considerada uma das maiores contaminações radiológicas do mundo — e recria a história a partir de personagens inspirados em pessoas reais.
Na trama, nomes fictícios se misturam a figuras que existiram, mostrando como o material radioativo se espalhou e afetou dezenas de famílias. A narrativa acompanha desde a descoberta da cápsula até o impacto devastador da radiação na população.
Logo nos primeiros episódios, a trama mostra o momento em que dois catadores encontram uma cápsula de metal em uma clínica de radioterapia abandonada, na Avenida Paranaíba. Na vida real, eles eram Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira.
A origem do acidente: os catadores e a cápsula de césio
Sem saber do perigo, a dupla vendeu o material a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Na série, ele aparece como Enevildo, interpretado por Bukassa Kabengele. Fascinado pelo brilho azulado da substância, o personagem leva o material para casa — o que contribui diretamente para a contaminação de outras pessoas.
O personagem Márcio, vivido por Johnny Massaro, é inspirado em diferentes profissionais que atuaram no combate à radiação. Entre eles está o físico Walter Mendes Ferreira, um dos primeiros a identificar o risco do material radioativo.
Um dos casos mais marcantes do acidente é o de Leide das Neves, de apenas 6 anos. Após entrar em contato com o pó de césio — que brilhava no escuro —, a menina ingeriu partículas radioativas ao se alimentar com as mãos contaminadas.
A atuação dos profissionais e os desdobramentos
De acordo com a CNEN, Walter utilizou equipamentos para medir os níveis de radiação, o que foi essencial para que as autoridades entendessem a gravidade da situação e adotassem medidas emergenciais.
A produção também retrata Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair. Na série, ela aparece como Antônia, interpretada por Ana Costa. Assim como na vida real, a personagem desconfia dos riscos do material e decide levá-lo às autoridades. Mesmo assim, acaba contaminada e não resiste. Maria Gabriela morreu em outubro de 1987, no mesmo dia que Leide.
Além das vítimas, a série incorpora figuras públicas e especialistas que atuaram durante o acidente. O ator Tuca Andrada, por exemplo, interpreta o então governador de Goiás, Henrique Santillo, que teve papel importante na gestão da crise.
O legado e as lições aprendidas
Outro nome importante na vida real foi o da médica Maria Paula Curado. Durante o auge da crise, ela propôs o isolamento dos contaminados no Estádio Olímpico de Goiânia, medida considerada fundamental para evitar que a radiação se espalhasse ainda mais. Na produção da Netflix, ela inspira a personagem Paula, especialista em contaminação ambiental.
Com tantas histórias impactantes e personagens reais envolvidos, a série Emergência Radioativa traz à tona não apenas a tragédia do acidente com césio-137 em Goiânia, mas também a coragem, a solidariedade e a luta diante de uma situação tão devastadora.
Ao revisitar esse episódio histórico, a produção também serve como um lembrete dos perigos da negligência e da falta de informação adequada em relação a materiais radioativos, destacando a importância da prevenção e da preparação para lidar com situações semelhantes no futuro.
