A Patagônia argentina enfrenta, neste início de 2026, a mais grave tragédia ambiental registrada na região em pelo menos duas décadas. Incêndios florestais de grandes proporções já devastaram mais de 12 mil hectares apenas na região andina da província de Chubut, provocaram a evacuação de ao menos 3 mil pessoas, destruíram casas, áreas produtivas e avançaram sobre florestas nativas de altíssimo valor ecológico.
O desastre ocorre em meio a um forte desmonte do orçamento ambiental promovido pelo governo do presidente Javier Milei, que reduziu drasticamente os recursos destinados à prevenção e ao combate a incêndios florestais, segundo dados oficiais e análises divulgadas pela imprensa argentina.
De acordo com balanços consolidados por governos provinciais, os focos mais severos concentram-se nos arredores de El Hoyo, Epuyén e Puerto Patriada, na chamada Comarca Andina do Paralelo 42. Autoridades locais classificam o episódio como o mais destrutivo desde o início dos anos 2000, superando incêndios registrados em 2015 e 2021, tanto em área queimada quanto em impacto social e ambiental. A velocidade de propagação do fogo, impulsionada por ventos fortes e condições de seca, agravou a destruição em zonas de interface entre floresta e áreas habitadas, ampliando o número de desalojados e os prejuízos materiais.
Embora incêndios florestais façam parte do histórico ambiental da Patagônia, especialistas alertam que a recorrência e a intensidade dos episódios aumentaram de forma significativa nos últimos anos, em um contexto marcado por mudanças climáticas, estiagens prolongadas e falhas estruturais nas políticas de prevenção.
Diferentemente de biomas tropicais, as florestas da Patagônia possuem regeneração extremamente lenta, o que significa que áreas devastadas podem levar décadas para se recompor. Por isso, cada grande incêndio representa uma perda ambiental duradoura, com efeitos sobre a biodiversidade, os recursos hídricos, o turismo e os modos de vida locais.
Orçamento ambiental em colapso
O incêndio histórico na Patagônia ocorre em um momento de enfraquecimento profundo da capacidade estatal de resposta. O Serviço Nacional de Manejo del Fuego (SNMF), órgão federal responsável por coordenar a prevenção e o combate a incêndios florestais na Argentina, sofreu subexecução orçamentária em 2024, quando o governo nacional utilizou apenas cerca de 22% dos recursos aprovados para o ano, segundo análises baseadas em dados da Oficina Nacional de Presupuesto. Ou seja, mesmo diante de alertas climáticos e históricos recentes de grandes incêndios, a maior parte do orçamento autorizado não foi efetivamente empregada.
Em 2025, a execução seguiu aquém do necessário, comprometendo ações de prevenção, manutenção de equipamentos, capacitação de brigadistas e logística. Além disso, bombeiros voluntários denunciaram que o governo federal repassou apenas metade dos recursos previstos por lei. De acordo com a Federação Bonaerense de Associações de Bombeiros Voluntários, os mil quartéis existentes no país receberam somente a metade dos 66 milhões de pesos que caberiam a cada unidade.
Esses valores são arrecadados por meio da Lei 25.054, que estabelece uma alíquota sobre apólices de seguros de automóveis e residências para financiar o sistema de bombeiros. Em 2025, o montante total estimado era de 65 bilhões de pesos – o equivalente a 44 milhões de dólares –, mas apenas uma parcela inicial foi efetivamente repassada.
A precarização também atinge o funcionamento do sistema como um todo. De acordo com apuração do jornal argentino Clarín, o número de horas de voo contratadas para operações aéreas foi reduzido de 5.100, em 2025, para 3.100, em 2026. Também haverá diminuição no número de boletins de alerta e avaliação de risco: de 2.310 relatórios previstos em 2025 para 1.850 em 2026.
Especialistas alertam que o sistema de alertas precário e a contínua precarização dos brigadistas – tanto do sistema federal quanto da Administração de Parques Nacionais – ampliam a vulnerabilidade diante de eventos extremos. Os cortes ocorrem apesar de 2024 ter sido o ano com maior número de incêndios reportados em quase uma década: foram 2.735 focos registrados, segundo dados do Centro de Informação Ambiental (CIAM).
Já para 2026, o cenário se agrava ainda mais: o orçamento aprovado prevê um corte de aproximadamente 69% nos recursos ambientais em relação a 2023 e de 53,6% em comparação com 2025, segundo estudos do Centro de Economía Política Argentina (CEPA) e da Fundación Ambiente y Recursos Naturales (FARN). Ainda que esses valores venham a ser parcialmente executados, o patamar de investimento fica muito abaixo do mínimo necessário para enfrentar um cenário de incêndios cada vez mais frequentes.
Outro elemento apontado por especialistas é a mudança institucional no SNMF, que deixou a estrutura do Ministério do Meio Ambiente e passou a ser vinculado ao Ministério da Segurança, mais especificamente à Secretaria de Luta contra o Narcotráfico. A alteração, segundo críticas, enfraquece a abordagem preventiva e ambiental da política de manejo do fogo e reforça uma lógica repressiva na gestão de emergências ambientais.
A deputada peronista Sabrina Selva, do bloco Unión por la Patria, também denunciou publicamente os impactos do desmonte. Para ela, os cortes colocam em risco não apenas o combate aos incêndios em curso, mas toda a capacidade do Estado de monitorar, alertar e proteger a população diante de eventos extremos.
Diante da calamidade, o governo Milei anunciou o envio de brigadistas, aeronaves e apoio logístico das Forças Armadas para a região afetada, em articulação com autoridades provinciais. Ao mesmo tempo, integrantes do governo e do Ministério da Segurança passaram a sustentar publicamente a hipótese de que parte dos incêndios teria origem intencional, associando os focos a supostos grupos radicais.

Um desmonte ambiental mais amplo
No território argentino, a Patagônia aparece como uma fronteira estratégica do extrativismo, cobiçada por projetos de mineração, energia e grandes empreendimentos, em um cenário no qual o Estado reduz sua capacidade de regulação, fiscalização e resposta a desastres ambientais.
O desastre na Patagônia não ocorre de forma isolada, mas se insere em um processo mais amplo de desmonte da política ambiental argentina promovido pelo governo Milei. Desde o início da gestão, o Executivo tem sinalizado a intenção de flexibilizar a Lei de Bosques Nativos, que estabelece limites ao desmatamento e obriga o Estado a financiar a conservação florestal. Especialistas alertam que mudanças nesse marco legal podem facilitar a conversão de áreas protegidas para atividades agropecuárias e extrativas, reduzindo ainda mais a resiliência ambiental do país.
Outro eixo central do desmonte é a tentativa de enfraquecer a Lei de Glaciares, considerada uma das legislações mais avançadas da América Latina na proteção de reservas estratégicas de água doce. A norma impede atividades como mineração e exploração de hidrocarbonetos em áreas glaciais e periglaciais, muitas delas localizadas justamente na Patagônia. Ambientalistas alertam que qualquer flexibilização dessa lei abriria caminho para o avanço do capital internacional sobre territórios extremamente preservados, colocando em risco o abastecimento hídrico, o equilíbrio climático regional e comunidades locais.
