Quando um desastre acontece, as cooperativas entram em ação. Amparadas por uma longa trajetória de respostas eficazes, essas organizações fortalecem comunidades e garantem o acesso a serviços essenciais como energia, água, crédito e assistência social. Esse histórico consolidou uma presença cooperativa global que transforma a forma como territórios se recuperam e se reconstroem após crises.
À medida que os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e severos, o movimento cooperativista demonstra estar estruturalmente preparado para atuar nesses contextos. O modelo, baseado na cooperação, na gestão democrática e no compromisso com o desenvolvimento local, posiciona as cooperativas como agentes naturais de resposta e reconstrução, especialmente em regiões vulneráveis.
Esse protagonismo não se limita a grandes catástrofes. No Brasil, a atuação cotidiana das cooperativas também revela sua capacidade de antecipar problemas sociais e reduzir vulnerabilidades. Em Guaxupé (MG), o Sicredi arrecadou mais de 500 quilos de alimentos durante o projeto Trenzinho do Sicredi – Natal da Cooperação e destinou os donativos à instituições locais. Já em Palotina (PR), o Sicredi Vale do Piquiri promoveu cursos gratuitos de português para estrangeiros, em parceria com a Faculdade Uniguaçu e o Comitê Mulher, a fim de ampliar a inclusão social e o acesso ao mercado de trabalho. São iniciativas que fortalecem comunidades antes mesmo que crises se instalem.
Respostas rápidas às comunidades
Nas Filipinas, após uma sequência de terremotos e tufões que afetaram milhões de pessoas, a seguradora cooperativa Climbs distribuiu mais de US$ 100 mil em indenizações a cooperativas associadas e agricultores. Com mais de 4 mil cooperativas filiadas, a instituição oferece soluções de seguro desenhadas especificamente para organizações de base, assegurando apoio imediato aos membros em situações de emergência. A Climbs também integra o Fundo para o Desenvolvimento Cooperativo Internacional (FICD), criado em 2024 para mobilizar recursos voltados à resposta a crises e à resiliência de longo prazo.
O fundo atua como uma rede global de solidariedade cooperativa, conectando organizações em diferentes países em torno de uma agenda comum de reconstrução e desenvolvimento. “Trabalhamos para unir cooperativas em todo o mundo em uma visão compartilhada para enfrentar crises humanitárias, promover a paz e construir resiliência econômica”, afirmou Sarah Alldred, diretora da FICD.
Cooperação entre cooperativas
Nos Estados Unidos, o princípio da cooperação entre cooperativas se materializa em um sistema estruturado de ajuda mútua. Após grandes tempestades, comboios de caminhões cruzam fronteiras estaduais para apoiar cooperativas vizinhas na restauração do fornecimento de energia. A iniciativa é coordenada por associações estaduais e pela Associação Nacional de Cooperativas Rurais de Energia Elétrica (NRECA), que representa cerca de 900 cooperativas no país, garantindo resposta rápida a comunidades rurais e de difícil acesso.
Esse apoio ultrapassa fronteiras nacionais. Após o furacão Melissa destruir 75% da infraestrutura elétrica da Jamaica, a Jamaica Public Service (JPS) solicitou ajuda. Dez eletricistas voluntários de cooperativas norte-americanas viajaram ao país e permaneceram por três semanas em campo, trabalhando até 12 horas por dia para restabelecer a energia em centenas de residências. “Como cooperativas, temos uma profunda preocupação com nossas comunidades e não existem fronteiras quando se trata de ajudar as pessoas”, afirmou John Medved, diretor de segurança da Rappahannock Electric Cooperative.
A mobilização foi organizada pela NRECA International. Segundo Ingrid Hunsicker, gerente sênior de programas, a resposta foi imediata. “Temos uma rede muito ativa de voluntários. Em uma semana, a equipe estava formada e a caminho da Jamaica”, relatou.
Construindo resiliência
O desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), no início de 2025, evidenciou uma lacuna significativa no apoio a projetos comunitários em mais de 130 países. Para lideranças do setor, o episódio reforçou o papel estratégico das cooperativas como estruturas capazes de responder a choques externos. “As cooperativas existem para atender às necessidades de seus membros e estão preparadas para usar seus recursos com esse objetivo, não para gerar lucro a acionistas”, afirmou Emily Varga, ex-consultora da agência.
Nesse cenário, organizações como o FICD passaram a assumir protagonismo ao mobilizar recursos e fortalecer redes de apoio entre cooperativas. “O Fundo garante que as cooperativas possam intervir quando as comunidades mais precisam, fortalecendo o apoio mútuo e construindo resiliência de longo prazo”, destacou Sarah Alldred.
Na Jamaica, cooperativas de crédito atuaram após os furacões em parceria com a Confederação Caribenha de Cooperativas de Crédito (CCCU), a Cuna Caribbean e a Liga Jamaicana de Cooperativas de Crédito (JCCUL). A Fundação Mundial para Cooperativas de Crédito (WFCU) ativou o projeto humanitário Projeto Quebra de Tempestade para avaliar necessidades e oferecer suporte emergencial e de longo prazo aos associados afetados.
Com a escolha de 2025 como Ano Internacional das Cooperativas, a expectativa é de que o protagonismo do setor ganhe ainda mais visibilidade em fóruns multilaterais, agendas climáticas e debates sobre desenvolvimento sustentável. Organizações internacionais já trabalham na ampliação de fundos cooperativos voltados à resposta a emergências e à adaptação climática, enquanto redes regionais estruturam protocolos permanentes de atuação em desastres naturais.
No Brasil, o movimento acompanha esse cenário com a consolidação de programas de impacto social, inclusão financeira e desenvolvimento territorial. A tendência é que as cooperativas ampliem investimentos em educação, apoio comunitário e financiamento sustentável, alinhando suas estratégias aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às discussões globais sobre resiliência econômica. A atuação em rede e a governança descentralizada seguem como diferenciais para a expansão dessas iniciativas nos próximos anos.
Fonte: The Co-op News com adaptações da MundoCoop
