Completam-se esta semana 20 anos desde a devastadora passagem do furacão Katrina por Nova Orleães, icónica cidade no estado de Louisiana, nos EUA, próxima ao Golfo do México. Foi a tempestade da bacia do oceano Atlântico que mais prejuízos causou, escreve esta semana a nossa jornalista Clara Barata, com danos estimados em 201 mil milhões de dólares. Em Nova Orleães, às margens do rio Mississíppi, 80% da área da cidade ficou inundada e um milhão de pessoas foram retiradas. Os números oficiais indicam que morreram 1392 pessoas, mas as estimativas iniciais indicavam até 1803 vítimas mortais.
Além da devastação, explica a Clara, também a má organização da evacuação na operação das autoridades da cidade e os erros na resposta pós-catástrofe prestada pela Administração do Presidente George W. Bush conjugaram-se para fazer desta catástrofe natural um desastre de origem humana “ou, pelo menos, muito agravado pela acção humana”.
Nos EUA, contudo, houve um antes e um depois do Katrina, a partir do qual a resposta de emergência passou a ser liderada por dirigentes com “capacidade e conhecimentos de gestão de emergências”. Mas as dificuldades de adaptação do território e a falta de preparação dos países para lidar com fenómenos climáticos extremos continuam a ser o calcanhar de Aquiles de várias nações, em particular as economias mais frágeis. Para muitos Estados, estas catástrofes – exacerbadas pelas mudanças climáticas causadas pelas emissões dos países ricos – são parte dos motivos que as prendem a um ciclo de dívidas e dificuldades de desenvolvimento.
Acresce que o impacto dos desastres, como se viu no caso do Katrina, mede-se também nessa capacidade de resposta. No ano passado, em entrevista ao Azul, a cientista Friederike Otto, co-fundadora do World Weather Attribution, explicava como este colectivo de investigadores procurava, cada vez mais, incluir nos seus estudos informação não apenas sobre o impacto das alterações climáticas nos fenómenos extremos, mas também sobre como a vulnerabilidade das populações pode exacerbar o impacto destes fenómenos – ou como as medidas de prevenção, como sistemas de alerta precoce ou um melhor planeamento, podem ajudar a reduzir esse impacto.
Aliás, também em fenómenos como os megaincêndios que assolaram Portugal, “o clima e as condições meteorológicas criam as condições para os incêndios, mas são as escolhas humanas que determinam a dimensão do desastre“, explicava à nossa Andrea Cunha Freitas a investigadora Francesca Di Giuseppe, do programa europeu Copérnico, dedicado à monitorização do clima e atmosfera.
Por estes dias, temos testemunhado um grande exemplo desta desproporção com que os fenómenos extremos afectam as comunidades mais vulneráveis. No Paquistão, onde as monções se têm tornado cada vez mais intensas e destrutivas, as inundações desde o final de Junho já mataram mais de 800 pessoas. A província de Punjab, considerada o celeiro do país, com 240 milhões de habitantes, teve que retirar esta semana um milhão de pessoas das dezenas de cidades que começaram a ser devastadas pelas inundações devido às chuvas intensas e à decisão da Índia – que também enfrenta chuvas fortes – de libertar água de duas barragens. Isto num país onde ainda há poucos anos, em 2022, inundações causadas por chuvas de monção sem precedentes destruíram estradas, plantações, pontes e outras infraestruturas, matando pelo menos mil pessoas. Que recuperação é possível com tragédias tão próximas no tempo?
Numa altura em que se multiplicam as catástrofes por todo o mundo e os próprios EUA relembram um dos furacões mais devastadores da sua história, a ironia das notícias não podia ser maior: esta semana, como nos conta a Clara Barata, mais de 180 funcionários da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês) alertaram que “a Administração Trump está a enviar esta agência e todo o país de volta a uma era pré-Katrina“, com dirigentes inexperientes e cortes nos programas que prejudicam tanto a sua missão que podem resultar numa catástrofe ao nível da causada pelo furacão de 2005.
Enquanto uma enorme parte das nações clama por ajuda para adaptar-se a um planeta cada vez mais instável, à mercê dos impactos acrescidos da sua vulnerabilidade, a maior economia do mundo – igualmente afectada por fenómenos extremos cada vez mais frequentes – decide retirar o seu investimento das acções que sabemos que funcionam. Vivemos tempos particularmente estranhos neste mundo ao contrário.