Áreas consideradas intocáveis pela biodiversidade marinha brasileira estão sofrendo com um inimigo silencioso. Um estudo recente revelou que até os santuários mais protegidos do país não escapam da contaminação por microplásticos — partículas invisíveis a olho nu que se infiltram nos organismos marinhos e ameaçam a saúde de ecossistemas inteiros.

Microplásticos em áreas teoricamente intocáveis

As Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) são regiões criadas para conservar a biodiversidade oceânica, mas nem mesmo aquelas com status mais rígido — as chamadas áreas de proteção integral (APIs) — estão livres da poluição. A pesquisa, publicada na revista Environmental Research, usou moluscos bivalves, como ostras e mexilhões, como indicadores da presença de poluentes no ambiente marinho.

O estudo revelou a presença de microplásticos até no Atol das Rocas, um dos locais mais isolados e restritivos do país, onde nem sequer o turismo é permitido. Isso mostra que essas partículas, levadas por ventos e correntes oceânicas, têm alcance global, contaminando até mesmo os refúgios mais protegidos da ação humana.

O que são microplásticos e de onde vêm?

Microplásticos são fragmentos de plástico com tamanho entre 1 mícron e 5 milímetros. Eles podem ser resultado da degradação de resíduos plásticos maiores ou ser produzidos intencionalmente para uso em cosméticos e processos industriais. Na costa brasileira, os mais encontrados foram de cores preta, branca e transparente, com menos de 1 milímetro.

A análise química revelou que os principais componentes são:

  • Polímeros alquídicos (28,1%) – usados em tintas e vernizes, provavelmente vindos de embarcações;
  • Celulose (21%) – pode ter origem natural ou humana, como resíduos de papel e alimentos;
  • PET (14%) – comum em embalagens plásticas e roupas;
  • PTFE (12,3%) – conhecido como teflon, usado em revestimentos industriais.

Os 40,6% restantes não puderam ser identificados, o que evidencia a complexidade do problema.

Os bivalves como sentinelas do mar

Para detectar a contaminação, os cientistas utilizaram moluscos bivalves, como ostras e mexilhões. Esses animais filtram constantemente a água para se alimentar, acumulando ao longo do tempo os poluentes presentes no ambiente. Isso os torna excelentes indicadores do histórico de contaminação.

Ao invés de realizar coletas pontuais de água, que podem variar com as marés, os bivalves oferecem um retrato mais estável da presença de microplásticos no ecossistema.

Níveis de contaminação e áreas afetadas

Foram analisadas dez áreas marinhas de proteção integral, incluindo Fernando de Noronha, Abrolhos, Alcatrazes, Jericoacoara e Atol das Rocas. Todas apresentaram algum nível de microplástico, com uma média de 0,42 partículas por grama de tecido úmido.

O Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes registrou a maior contaminação (0,90 partículas/g), enquanto o Atol das Rocas teve a menor (0,23 partículas/g). Apesar disso, os níveis estão abaixo da média internacional para áreas protegidas — e muito abaixo dos encontrados em regiões como Santos ou algumas praias do Rio de Janeiro, que registram contaminação até 60 vezes maior.

Soluções que vão além das fronteiras

A pesquisa conclui que criar áreas protegidas, por si só, não basta. Mesmo com regras rígidas e sem presença humana direta, os microplásticos continuam chegando. O problema é global — e exige respostas à altura.

Apenas com medidas internacionais, como o Tratado Global dos Plásticos, atualmente em discussão no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), será possível mitigar a poluição plástica nos oceanos de forma efetiva.

 

Fonte: CNN Brasil

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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