Um cenário inesperado se esconde sob as águas da costa alemã, onde bombas nazistas, minas e cabeças de torpedo descartadas no fim da Segunda Guerra Mundial podem ser encontradas. Lançadas às pressas de embarcações entre 1946 e 1948, essas toneladas de munições se acumularam com o passar do tempo, formando um tapete corroído no fundo da Baía de Lübeck, no extremo oeste do Mar Báltico. Por muitos anos, esses explosivos permaneceram esquecidos, até que cientistas decidiram examinar o impacto desse material no ecossistema.
“Alguns de nós esperavam ver um deserto, sem nada vivendo ali porque tudo estava envenenado”, conta Andrey Vedenin, do Instituto de Pesquisa Senckenberg, que liderou a primeira missão destinada a catalogar a vida capaz de sobreviver entre munições submersas. No entanto, o que a equipe encontrou no local foi exatamente o oposto.
Para assombro dos pesquisadores, milhares de criaturas marinhas haviam transformado as munições em seu refúgio. Conchas metálicas deformadas, bolsões de fusíveis corroídos e cartuchos meio enterrados tinham se tornado alicerces de um ecossistema mais rico e populoso que o leito marinho ao redor. Estrelas-do-mar se acumulavam em um bloco exposto de TNT; mexilhões, anêmonas, peixes e caranguejos ocupavam cada fresta disponível, instalados a poucos centímetros de cargas explosivas.
Como destacou o portal The Guardian, a pesquisa, publicada na revista Communications Earth & Environment, apontou que mais de 40 mil animais viviam em cada metro quadrado das munições — cinco vezes mais que nas áreas vizinhas. Era a constatação de uma grande ironia: objetos projetados para matar estavam agora servindo de abrigo e suporte para a vida.
Você pode ver como a natureza se adapta após um evento catastrófico como a Segunda Guerra Mundial e como, de certa forma, a vida volta aos lugares mais perigosos”, disse Vedenin.
O portal britânico destaca que, antes da guerra, o Báltico era repleto de pedras e afloramentos rochosos, fundamentais para a fixação de corais, cracas, mexilhões e esponjas. Contudo, esses elementos foram quase todos removidos para a construção civil. Assim, estruturas artificiais passaram a cumprir um papel substituto. Naufrágios, oleodutos, parques eólicos offshore e até mesmo plataformas de petróleo criam superfícies duras essenciais para a fauna marinha.
E, claro, a descoberta na Baía de Lübeck mostra que também munições descartadas, apesar de perigosas, passaram a cumprir essa função, algo que provavelmente se repete em outras regiões do globo.
Entre 1946 e 1948, a costa alemã recebeu cerca de 1,6 milhão de toneladas de armamento descartado. Em todo o mundo, milhões de toneladas de munições repousam no fundo do mar, frequentemente em locais pouco documentados por causa de fronteiras nacionais, sigilo militar e registros históricos dispersos. É importante mencionar que, além do risco de explosões, há a ameaça constante de liberação de compostos tóxicos devido à corrosão.
A partir da década de 1990, acadêmicos passaram a alertar para esse “perigo vindo das profundezas”. A remoção do material tornou-se um tema urgente, especialmente com o crescimento de infraestruturas offshore, como parques eólicos e gasodutos, que exigem intervenções no leito marinho.
Porém, retirar essas estruturas significa também destruir os ecossistemas que floresceram sobre elas. Na Baía de Lübeck, onde a remoção das munições já começou, esse dilema é evidente.
Por isso, os cientistas defendem que, após a retirada dos artefatos explosivos, estruturas seguras sejam colocadas em seu lugar para preservar a vida marinha. Como sugere Vedenin, é preciso “substituir essas carcaças de metal deixadas pelas munições por alguns objetos mais seguros e não perigosos, como talvez estruturas de concreto”.
