
‘As maiores instituições oferecem ter equipes dedicadas e integrar o ESG de forma mais profunda aos seus processos’, diz Takahashi, da Anbima Foto: Daniel Teixeira/Estadão – 27/03/2019
A maioria dos gestores brasileiros vem incorporando práticas ESG em seus processos, e cerca de 38% afirmam ter excluído ou deixado de investir em ativos por conta de mau desempenho no classificações. O dado consta na quarta edição da pesquisa “Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais”, elaborada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) com o Datafolha.
Segundo o levantamento, mais da metade (55%) das gestoras conta com políticas formais de investimento responsável. Entre as perfis de maturidade “iniciado”, “emergente” e “engajado” (de acordo com a classificação da pesquisa), esse percentual é igual ou superior a 95%. Além disso, 56% têm alguma estrutura dedicada ao tema, enquanto 78% consideram fatores ESG na hora de tomar decisões de investimento.
Cacá Takahashi, diretor da Anbima e coordenador da Rede Anbima de Sustentabilidade, observa que grandes bancos e instituições com maior patrimônio sob gestão apresentam níveis mais elevados de engajamento em ESG. “As maiores instituições fornecem ter equipes dedicadas e integrar o ESG de forma mais profunda aos seus processos. Já para casas menores, ampliar capacidades envolve custos, contratação de pessoas e equilíbrio com outras prioridades do negócio”, afirma.
Gestão de riscos está no topo
Em muitos casos, a incorporação do ESG está ligada sobretudo à gestão de riscos – principal motivador apontado pelas instituições (51%) para integrar os critérios às decisões de investimento. Em seguida constam motivos como decisão institucional (26%), dever fiduciário (12%) e oportunidades de maior retorno (6%).
Nesse contexto, o dado de que 38% dos gestores já deixaram de investir em questões ESG pode refletir menos uma postura ativista e mais uma visão fiduciária. “Quando o ESG entra como ferramenta de gerenciamento de riscos, ele passa a impactar diretamente a precificação dos ativos e a construção dos portfólios”, observa Takahashi. “Isso exige dados, relatórios, transparência e também um arcabouço regulatório que ajuda a dar comparabilidade.”
Uma pesquisa mostra que, entre os riscos assumidos pelos gestores, eles lideram os ligados à governança – como transparência (88%), ética (87%) e segurança da informação e privacidade de dados (76%). Temas ambientais, como gestão de resíduos (62%), mudanças climáticas (59%) e biodiversidade e uso de solo (49%), aparecem mais abaixo no ranking, embora ainda com porcentuais relevantes e refletindo uma curva natural de aprendizado do mercado, na avaliação de Takahashi.
Mudanças climáticas têm porcentualmente elevadas
“A agenda de governança é mais conhecida e há mais tempo incorporada à análise de risco. Já os riscos ambientais e sociais são mais recentes e alteram novas especificações, metas e formas de mensuração”, disse o diretor da Anbima. “O fato de mudanças climáticas já aparece em porcentuais elevados, mesmo sendo um tema relativamente novo, é um sinal positivo.”
Outro ponto é a queda da demanda dos clientes como fator de pressão para a adoção de estratégias ESG, de 4% em 2021 para 2% em 2025. Segundo Takahashi, isso está ligado à transferência de recursos para a renda fixa em um cenário de juros elevados. “Não significa que o investidor deixou de se importar com sustentabilidade, mas que ele passou a acessá-la por outros caminhos”, explica o diretor, mencionando o crescimento na adesão a emissões de títulos que incorporam critérios ESG.
Além disso, ele lembra que a última edição da pesquisa foi feita em 2021 e, na comparação com 2025, são dois contextos “completamente diferentes”. “Em 2021, a pandemia havia colocado questões ambientais e sociais no centro do debate. Agora, o mercado enfrenta preocupações com inflação, crescimento e estresse geopolítico. Mesmo assim, o percentual mostra que uma agenda continua forte e consistente.”
Abordagens na prática
Quando observado as abordagens adotadas, o estudo aponta a predominância de estratégias como filtros negativos (46%) – que excluem determinados setores ou empresas – e “best in class” (41%) – que priorizam os melhores desempenhos dentro de um mesmo segmento. Abordagens consideradas mais sofisticadas, como filtros positivos (22%) e integração no avaliação (21%), são menos frequentes.
Segundo a Anbima, esse padrão reflete tanto a maturidade quanto a capacidade operacional das instituições. “Existe uma escala evolutiva. Muitas casas começam excluindo riscos evidentes, depois passam a escolher os melhores da categoria e, com mais estrutura e capacidade analítica, chegam à integração completa”, afirma Takahashi.
Para as próximas edições da pesquisa, a expectativa é de avanços graduais, impulsionados por maior pragmatismo e pela aproximação entre discurso e implementação. “A agenda está migrando de uma preocupação mais declaratória para uma lógica clara de gestão de riscos e precificação”, disse o diretor da Anbima. “Quando isso acontece, o ESG e passa a fazer parte do núcleo da decisão de investimento.”
A quarta edição da pesquisa entrevistou 206 instituições associadas ou que seguem a autorregulação da Anbima para avaliar como percebem e integram as práticas ESG em suas estruturas e decisões. Do total, 74% são gestoras de recursos (ativos), 11% bancos e 15% outras instituições (corretoras, distribuidoras e securitizadoras).
Esta notícia foi publicada na Transmitir+ no dia 12/01/2026, às 15h05
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