O Irão ergue-se hoje como uma sombra, não apenas sobre o Médio Oriente, mas também sobre a consciência política do mundo contemporâneo.
Em cada guerra por procuração, em cada milícia financiada à distância, em cada atentado legitimado por intermediários, o regime de Teerão projeta uma visão do poder assente na normalização da violência.
Do Líbano ao Iémen, da Síria ao Iraque, a sua influência não é exercida através da diplomacia ou da cooperação, mas sim pela instrumentalização sistemática da violência.
No entanto, reduzir o Irão dos aiatolas a um ator agressivo no tabuleiro geopolítico é falhar no essencial. O regime iraniano é, acima de tudo, um projeto ideológico fechado, um sistema que substitui a deliberação pelo dogma, a cidadania pela submissão e o espaço público pelo ritual disciplinador.
Não governa em nome dos cidadãos, mas sim sobre eles. E fá-lo não apenas com leis e instituições, mas também com símbolos, encenações e uma pedagogia sistemática do terror.
Esta lógica manifesta-se com particular crueldade na forma como o regime lida com a dissidência. De acordo com dados das Nações Unidas, o Irão continua a ser um dos países que mais recorre à pena de morte, muitas vezes após julgamentos sumários baseados em acusações vagas como “inimizade contra Deus”.
As execuções públicas continuam a ser utilizadas como instrumento de intimidação coletiva, um espetáculo disciplinador dirigido não apenas ao condenado, mas à sociedade inteira.
É significativo que muitas dessas execuções ocorram ao amanhecer. No exato momento em que o dia começa, o regime põe termo à possibilidade de recomeço. Ao matar quando a luz surge, transmite uma mensagem clara: não há transição possível entre a noite e a esperança que não esteja sob o controlo do poder. A violência deixa de ser apenas física, tornando-se simbólica e quase litúrgica.
A repressão das mulheres ocupa um lugar central nesta arquitetura de domínio. O controlo do vestuário, da presença no espaço público e da autonomia feminina não é um exagero cultural nem um pormenor religioso, mas sim um pilar político.
Organizações como a Human Rights Watch documentaram detalhadamente o modo como a polícia da moralidade age como braço armado de uma ideologia que transforma o corpo feminino num território ocupado. Ao punir as mulheres que ousam desobedecer, o regime reafirma a sua autoridade sobre todos.
Foi contra este sistema, e não apenas contra episódios isolados de “inflação no país”, que o povo iraniano saiu à rua em dezenas de cidades. O que se tem observado nas manifestações das últimas semanas é uma rara explosão de coragem cívica, protagonizada sobretudo por jovens que se recusam a aceitar um futuro de silêncio e obediência como algo inevitável.
Mulheres sem véu, homens ao seu lado, estudantes, trabalhadores: uma sociedade que desafia um Estado que se alimenta do medo.
Estes protestos expõem uma verdade que o regime tenta ocultar, o Irão real não se confunde com o Irão oficial. Existe um país urbano, instruído e profundamente ligado ao mundo que não se identifica com a retórica da morte nem com a glorificação permanente do martírio.
Um país que aspira à normalidade política, à liberdade de expressão, à igualdade perante a lei e à possibilidade de discordar sem morrer por isso.
