Quando pensamos em poluição plástica, a imagem mais comum é a de garrafas boiando ou resíduos visíveis na superfície da água. Mas a ameaça mais persistente pode ser justamente a que não se vê. Pesquisas recentes mostram que, sob ação da luz solar, microplásticos liberam uma mistura complexa de substâncias químicas dissolvidas, criando um tipo de contaminação silenciosa que se move, reage e entra nos ciclos naturais da vida aquática.

Microplásticos: poluição química, não apenas fragmentos

Microplásticos No Seu Corpo (2)
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O estudo, publicado na revista científica New Contaminants, demonstra que o impacto dos microplásticos vai além da fragmentação física. Uma vez em contato permanente com a água, essas partículas passam a liberar matéria orgânica dissolvida — uma mistura de compostos químicos que se espalha muito além do próprio plástico.

Esse processo cria uma contaminação difusa: invisível a olho nu, mas capaz de circular por grandes volumes de água, interagir com organismos vivos e alterar reações químicas naturais.

O Sol como acelerador silencioso da poluição

A luz solar, especialmente a radiação ultravioleta, desempenha um papel central. Ao incidir sobre a superfície dos microplásticos, ela rompe ligações químicas nos polímeros, enfraquecendo sua estrutura. O resultado não é uma degradação brusca, mas um vazamento contínuo de pequenas moléculas que migram para o ambiente aquático.

Os pesquisadores observaram que, na ausência de luz, a liberação química é muito menor. Sob radiação solar, o processo se intensifica de forma clara e persistente.

Nem todo plástico se comporta da mesma forma

A equipe analisou quatro tipos de plásticos comuns no ambiente. Entre eles, o polietileno (PE) e o polietileno tereftalato (PET), amplamente usados em embalagens, e dois materiais considerados biodegradáveis: o ácido poliláctico (PLA) e o PBAT.

Todos liberaram carbono orgânico dissolvido, mas os biodegradáveis se destacaram. Por terem cadeias poliméricas mais frágeis, eles reagiram com mais intensidade à luz solar, liberando ainda mais compostos químicos. A descoberta expõe uma contradição: materiais criados para se degradar mais rápido podem gerar impactos químicos mais intensos no ambiente aquático.

Um gotejamento químico que não para

Um dos achados mais preocupantes do estudo é que a liberação química não diminui com o tempo. O processo segue uma cinética de ordem zero, ou seja, ocorre a uma taxa constante, independentemente da quantidade de substâncias já presentes na água.

A limitação está na superfície do plástico, não na saturação do ambiente. Forma-se uma fina película de água ao redor da partícula — um fenômeno conhecido como film diffusion — que desacelera, mas não interrompe, a saída contínua de compostos químicos.

Misturas complexas e reações imprevisíveis

Microplásticos No Seu Corpo
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As análises químicas revelaram uma diversidade impressionante de moléculas dissolvidas. Entre elas estão aditivos industriais, fragmentos de polímeros e produtos gerados por reações fotoquímicas induzidas pela luz.

Plásticos com estruturas aromáticas liberaram misturas especialmente complexas. Com o envelhecimento solar, aumentam os grupos ricos em oxigênio, como ácidos, álcoois e compostos carbonílicos. Esse processo torna a superfície do plástico mais reativa, criando um ciclo que se retroalimenta.

Aditivos como ftalatos — conhecidos por seus potenciais efeitos tóxicos — aparecem com destaque, já que não estão fortemente ligados à matriz do plástico.

Uma química diferente da natureza

Os pesquisadores também compararam essa matéria orgânica derivada de microplásticos com a matéria orgânica natural presente em rios e lagos. O resultado é claro: elas não são iguais.

A matéria de origem plástica se assemelha mais a sinais químicos microbianos do que a compostos vindos de solos ou vegetação. Além disso, sua composição muda rapidamente ao longo do tempo, tornando-se quimicamente instável e altamente reativa.

Impactos nas cadeias alimentares e na água potável

Por estarem dissolvidas, essas moléculas entram facilmente nas redes microbianas aquáticas. Algumas estimulam a atividade biológica; outras a inibem, alterando equilíbrios delicados dos ciclos de carbono e oxigênio.

Essas substâncias também interagem com metais pesados, como cobre, cádmio e chumbo, modificando sua mobilidade e toxicidade. Em sistemas de tratamento de água potável, essa química invisível pode favorecer a formação de subprodutos indesejados, complicando processos projetados para outros tipos de contaminantes.

Uma contaminação que não pode mais ser ignorada

Com a produção global de plástico em crescimento contínuo, a entrada de microplásticos nos ecossistemas aquáticos não mostra sinais de desaceleração. Uma vez na água, a luz solar garante que a liberação química continue — dia após dia.

Cientistas já exploram o uso de aprendizado de máquina para prever o comportamento dessas “nuvens químicas” e avaliar seus riscos ecológicos. O recado do estudo é claro: entender essa poluição invisível deixou de ser opcional. O plástico continua se acumulando. O Sol continua brilhando. E a química, silenciosamente, segue em movimento.

 

[ Fonte: EcoInventos ]

 

 

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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