A terrível “novidade” que alguns já antecipavam, outros preferiam não admitir e muitos morriam de medo de escutar foi confirmada pela ONU: o Acordo de Paris, tratado firmado em 2015 para limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e evitar o colapso climático, foi para o “beleléu”. De acordo com um diagnóstico publicado no início do mês pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), é impossível cumprir essa meta em curto prazo, já que nem os objetivos de redução das emissões de gases de efeito estufa até 2030 – que está logo ali – foram cumpridos pela esmagadora maioria dos países signatários do acordo.
Sendo impossível evitar o inevitável (o aquecimento da atmosfera), o Pnuma anunciou um novo plano que busca contornar o que talvez seja incontornável (o ritmo de aumento da temperatura). Os detalhes desse plano estão no relatório Limiting Overshoot (“Limitar a Extrapolação”, em tradução livre), que fala em “gerenciar a ultrapassagem temporária da temperatura” acima de 1,5ºC nos próximos anos para depois “reverter o aumento até o fim deste século”.
Parece uma tarefa complexa, e de fato é. O documento afirma que, se o aquecimento do planeta chegar nas próximas décadas à faixa de 1,8°C, sua capacidade de retorno ao patamar de 1,5°C é incerta. Na luta contra o pior cenário, a ONU pede mais governança global frente a desafios como o aumento da perda florestal, o derretimento das geleiras e dos polos e a elevação do nível do mar. O documento alerta também que manter ou ultrapassar a marca de 1,5°C trará impactos socioambientais imediatos aos ecossistemas e comunidades mais vulneráveis.
“O relatório do Pnuma mostra que falhamos em cumprir o objetivo central da Convenção do Clima da ONU de evitar a interferência perigosa da humanidade no sistema climático”, afirma Claudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima. O ambientalista diz que o mundo já entrou em uma “era de consequências”, como a tragédia no Nepal deixou claro: “Nenhum governo do planeta está preparado para o que enfrentaremos nas próximas décadas. É hora de começar a falar sério sobre adaptação e cobrar recursos de perdas e danos dos países ricos para as nações mais pobres. É hora de reduzir emissões de superpoluentes de vida curta, como o metano, para refrear rapidamente aumentos maiores de temperatura. Mas, sobretudo, é hora de eliminar os combustíveis fósseis, principais causadores desta crise”.
O impacto do El Niño
Um estudo do climatologista norte-americano James Hansen demonstra que, por conta do El Niño, podemos chegar a 1,7°C de aquecimento médio global até o final deste ano, diz Pedro Aranha, coordenador da Coalizão Pelo Clima: “Nas últimas semanas tivemos um número significativo de mortes por ondas de calor extremo na Europa e o deslizamento de uma geleira que pode ter matado mais de oito mil pessoas no Nepal e na China. E o El Niño mal começou. Se já estamos vendo todos esses fenômenos, imagina com 1,7°C ?”.
Organizador da Marcha Pelo Clima que acontecerá em 20 de setembro no Rio de Janeiro, Aranha prega a transformação nos modos de produção e classifica como “negacionismo sutil” o novo plano anunciado pelo Pnuma: “Não reconhecer a urgência do problema faz parte de um processo de negação das mudanças climáticas. Tem que parar agora com as petroleiras, com o desmatamento, com a produção massiva de soja para alimentar suínos na Europa e na China”, diz.
“Cada fração de grau importa”
Segundo o relatório do Pnuma, até mesmo para as projeções de cenário mais otimistas serão necessários investimentos massivos em ações de adaptação às mudanças climáticas tanto em escala local quanto global. A prioridade continua sendo a redução das emissões de gases de efeito estufa e a remoção de dióxido de carbono da atmosfera através de ações de reflorestamento e da adoção de novas tecnologias. Diretor executivo do ClimaInfo, Délcio Rodrigues avalia que o diagnóstico da ONU é realista: “A ideia de overshoot pode ser um tanto pessimista. Mas, como cada fração de grau importa – já que os impactos da mudança climática se tornarão mais graves à medida que essa fração aumenta –, o negócio é arregaçar as mangas e manter a pressão sobre os governos e as empresas responsáveis pelas emissões”.
Claudio Ângelo diz que o declínio não ocorrerá “enquanto países produtores de combustíveis fósseis olharem para essas indústrias como uma benesse em vez de uma maldição”. Abandonar o objetivo de devolver os termômetros a 1,5°C, afirma, não é uma opção: “Seria assinar um pacto coletivo de suicídio”.
