Para enxergar dentro de um vulcão, os cientistas não podem simplesmente abrir um túnel até o magma. Em 2014, a solução ao redor do Monte St. Helens, nos Estados Unidos, foi muito mais incomum: detonar 23 explosões controladas e espalhar cerca de 3.500 sismógrafos pela região. O chão tremeu de propósito, e os ecos dessas ondas ajudaram a montar uma imagem do sistema que alimenta um dos vulcões mais conhecidos do país.

Por que o Monte St. Helens recebeu 23 explosões controladas?

O experimento fazia parte do projeto iMUSH, sigla de Imaging Magma Under St. Helens. A ideia era investigar desde a crosta rasa até regiões próximas ao limite entre crosta e manto, procurando entender por onde o magma sobe e onde ele pode ficar armazenado antes de alcançar níveis mais superficiais.

As explosões funcionaram como fontes sísmicas com hora e posição conhecidas. O projeto iMUSH explica que algumas cargas foram posicionadas em anéis a aproximadamente 15 e 30 km do cume, enquanto outras ficaram a distâncias maiores. Como os pesquisadores sabiam exatamente onde e quando cada pulso começava, podiam medir quanto tempo a onda levava para chegar a milhares de sensores.

Um pequeno pulso sísmico controlado atravessa o solo e envia ondas previsíveis em direção aos sensores espalhados pela região

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Como o Monte St. Helens virou um enorme experimento sísmico?

Um vulcão é um alvo especialmente difícil porque o interior não é formado por camadas lisas e uniformes. Há rocha fraturada, zonas alteradas por fluidos, materiais solidificados e regiões parcialmente fundidas. Para atravessar esse labirinto com muitos ângulos diferentes, a equipe montou uma rede de escala incomum:

  • Cerca de 3.500 sismógrafos foram usados ao redor do vulcão.
  • Os equipamentos ocuparam aproximadamente 5.920 posições ao longo de três semanas.
  • As 23 explosões controladas produziram sinais registrados em várias direções.
  • Os arranjos geraram cerca de 80 mil traços sísmicos para análise.
  • Alguns perfis alcançaram afastamentos de até 150 km, permitindo investigar grande parte da crosta.
Milhares de sensores cercam o Monte St. Helens e registram ondas que cruzam a crosta por dezenas de quilômetros

O que os milhares de sensores conseguiram registrar?

Quanto mais rápido ou mais devagar uma onda atravessa uma região, mais pistas ela oferece sobre densidade, temperatura e estado das rochas. O estudo publicado na Nature Communications confirma o uso das 23 explosões em um arranjo sísmico de grande escala. Os números do experimento mostram a dimensão do trabalho montado em 2014:

Parte do experimentoEscalaFunção
Explosões23 fontesCriar ondas sísmicas controladas
SismógrafosCerca de 3.500Registrar a chegada das ondas
Posições de instalaçãoCerca de 5.920Aumentar a cobertura espacial
Traços registradosCerca de 80 milReconstruir a estrutura subterrânea
Maior afastamentoAté 150 kmInvestigar da crosta rasa a grandes profundidades

O que as ondas revelam sobre o Monte St. Helens?

Os resultados não desenharam uma enorme caverna cheia de lava. O que aparece é um sistema magmático distribuído, no qual anomalias de velocidade sísmica ajudam a localizar zonas quentes, materiais parcialmente fundidos e possíveis caminhos usados por magma e fluidos. Análises do iMUSH identificaram uma importante anomalia na crosta superior, em profundidades de vários quilômetros abaixo do vulcão.

Essa imagem combina melhor com a visão moderna de um reservatório de magma: não um tanque vazio preenchido por líquido, mas uma região de cristais, rocha quente e porções de material fundido conectadas por diferentes caminhos. No Monte St. Helens, o sistema ainda se liga a estruturas muito mais profundas relacionadas à Placa Juan de Fuca, que mergulha sob a América do Norte.

O canal GeologyHub, com mais de 398 mil inscritos, mostra como a atividade sísmica e o armazenamento de magma fazem parte do funcionamento atual do Monte St. Helens. O vídeo ajuda a visualizar por que o que existe abaixo do vulcão é melhor entendido como um sistema de alimentação do que como uma única bolsa de lava:

Por que o Monte St. Helens não tem uma simples câmara de magma?

A expressão “câmara magmática” é útil, mas pode criar a imagem errada. Os dados sísmicos e outros métodos do projeto apontam para uma arquitetura em vários níveis, na qual o magma pode ficar armazenado, cristalizar, receber material novo e migrar novamente. Essa leitura depende de várias pistas:

  • Velocidades sísmicas anômalas revelam regiões com propriedades diferentes da rocha fria ao redor.
  • Terremotos naturais mostram onde há fraturas e movimentação de fluidos.
  • Métodos magnetotelúricos ajudam a detectar materiais com maior condutividade elétrica.
  • A química das lavas erupcionadas registra condições de armazenamento e mistura do magma antes de chegar à superfície.
Cristais, rocha quente e pequenas frações de magma formam um sistema distribuído em vários níveis sob o vulcão

Explodir o chão ajudou a enxergar um sistema que ninguém pode perfurar

O que parece exagerado no título era, na prática, um experimento cuidadosamente controlado. As 23 explosões não tentavam acordar o vulcão e nem simular uma erupção. Elas produziam sinais conhecidos para que os 3.500 sismógrafos pudessem transformar pequenas diferenças no tempo de chegada das ondas em um mapa do interior.

O resultado ajuda a explicar por que estudar um vulcão ativo exige olhar muito abaixo da cratera. O St. Helens visível é apenas a parte final de uma rede que atravessa quilômetros de crosta. Ao criar terremotos minúsculos de propósito, os pesquisadores conseguiram usar a própria Terra como meio de imagem e revelar uma estrutura que nenhuma câmera poderia alcançar diretamente.

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By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART