Na costa gelada da Antártida, o guano dos pinguins faz mais do que se acumular no solo. Pesquisadores ligados à Universidade de Helsinque observaram que a amônia liberada participa da formação de partículas capazes de favorecer nuvens e neblina sobre a região. O processo conecta animais, oceano e atmosfera.
O que o guano libera quando permanece no solo antártico?
O guano reúne resíduos ricos em compostos de nitrogênio. Conforme esse material se decompõe, parte do nitrogênio pode chegar ao ar como amônia gasosa, uma molécula pequena que participa de reações atmosféricas mesmo em concentrações muito baixas.
Na costa antártica, grandes colônias deixam depósitos concentrados próximos aos locais de reprodução. O frio não impede completamente a liberação desses gases. Durante períodos favoráveis, o material continua emitindo amônia, inclusive depois que muitos animais já deixaram a área.
Como o guano dos pinguins inicia novas partículas no ar?
Publicado na revista Communications Earth & Environment, o estudo Penguin guano is an important source of climate-relevant aerosol particles in Antarctica identificou que emissões das colônias favorecem a formação de partículas na atmosfera costeira.
A amônia ajuda moléculas presentes no ar a se agruparem, como se oferecesse apoio para estruturas microscópicas crescerem. Essas estruturas são chamadas de aerossóis. Elas não são nuvens prontas, mas podem alcançar tamanho suficiente para receber água e participar do surgimento de gotículas.

Quais elementos completam essa conexão entre pinguins e oceano?
O processo não depende apenas das colônias. Compostos de enxofre produzidos por organismos marinhos chegam à atmosfera e reagem com a amônia. A dimetilamina, provavelmente ligada ao próprio guano, também pode acelerar as primeiras etapas de crescimento das partículas.
Os principais participantes dessa sequência são:
- Guano acumulado: fornece compostos nitrogenados que se transformam em gases próximos às colônias.
- Amônia gasosa: ajuda moléculas pequenas a permanecerem unidas durante a formação inicial.
- Fitoplâncton marinho: contribui com substâncias de enxofre produzidas na superfície do oceano.
- Ar costeiro: transporta e mistura os compostos até que as partículas possam crescer.
Por que essas partículas podem favorecer nuvens e neblina?
Quando um aerossol cresce, ele pode funcionar como uma base para o vapor de água condensar. O núcleo de condensação atua como uma superfície microscópica onde gotículas se formam, tornando neblina e nuvens possíveis em condições adequadas de umidade e temperatura.
O portal científico da Universidade de Helsinque registra que as partículas podem crescer e contribuir para núcleos de condensação. A observação mostra uma ponte atmosférica entre colônias, microrganismos oceânicos e o céu antártico.

O que essa descoberta muda na compreensão da Antártida?
O resultado mostra que animais terrestres podem influenciar processos que acontecem acima do oceano. O guano dos pinguins deixa de ser apenas resíduo local e passa a integrar uma cadeia química que alcança partículas, gotículas e propriedades das nuvens costeiras.
Ainda é necessário medir como diferentes nuvens afetam calor e luz em cada superfície. Mesmo assim, a pesquisa amplia o retrato da atmosfera antártica: mudanças nas colônias ou no fitoplâncton podem alterar conexões naturais que os modelos climáticos precisam representar com mais precisão.
