O Estreito de Ormuz, entre os golfos Pérsico e de Omã, tem, nos últimos tempos, estado nas luzes da ribalta internacional, protagonismo forçado pelo conflito entre os Estados Unidos da América e o Irão.
Bloqueios marítimos sucessivos têm feito soar, uma e outra vez, os alarmes mundiais e feito disparar os preços dos combustíveis fósseis. Mas os impactos podem ir muito além da vertente puramente económica.
Um estudo publicado esta semana na revista ‘Biological Invasions’, assinado por mais de duas dezenas de cientistas, incluindo o português João Canning-Clode, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), alerta para uma dimensão escondida da crise no Estreito de Ormuz. Mais de mil navios comerciais que estão parados há meses nas águas desses dois golfos poderão, ainda que inadvertidamente, “desencadear um evento massivo de espécies marinhas invasoras”.
Explicam os investigadores que períodos prolongados atracados faz com que os navios acumulem nos seus cascos “densas comunidades de organismos marinhos”, como algas, cracas, mexilhões e outros invertebrados. Quando, por fim, os navios puderem retomar os seus caminhos, poderão levar consigo esses organismos para mares e ecossistemas distantes e diferentes, onde poderão tornar-se espécies invasoras, proliferar e pôr em risco a estabilidade ecológica e a biodiversidade desses locais.
“As espécies marinhas invasoras têm profundos impactos ecológicos e económicos nas zonas costeiras por todo o mundo, e é extremamente difícil, se não mesmo impossível, erradicá-las depois de se estabelecerem”, explica Carolyn Tepolt, do Instituto Oceanográfico Woods Hole e uma das autoras do artigo.
“Esta disrupção do transporte marítimo global tem muitas repercussões e também criou, de forma mais discreta, as condições ideais para a disseminação de espécies de águas quentes para novos portos”, salienta.
Há muito que o transporte marítimo é reconhecido como uma das principais vias de propagação de espécies marinhas invasoras, mas os cientistas dizem que a escala e a duração da recente paragem da navegação no Estreito de Ormuz e a consequente acumulação de navios na região é inédita, “criando um desafio de biossegurança global sem precedentes”.
A equipa apela aos operadores dos navios, às autoridades portuárias, às entidades reguladoras e aos gestores ambientais que reforcem a gestão da bioincrustação marinha, também conhecida como “biofouling”, nos cascos dos navios, que expandam a monitorização de espécies invasoras em portos de maior risco, que melhorem as previsões sobre os movimentos dos navios e que coordenem esforços de resposta internacional rápida cajo seja preciso agir prontamente para evitar os piores cenários.
