A recente aprovação, pela Comissão Europeia, do primeiro agonista do recetor de GLP-1 em formulação oral para o tratamento da obesidade, o semaglutido, representa um marco relevante na abordagem desta doença crónica. Até agora disponível numa formulação injetável, este fármaco passa a poder ser administrado em comprimido diário, o que poderá facilitar o acesso e a adesão terapêutica de muitas pessoas.

Prof.ª Doutora Paula Freitas | Fotografia: D.R.

Os resultados que sustentam esta decisão são robustos. O programa de estudos OASIS, que avaliou o semaglutido oral, demonstrou uma perda de peso média na ordem dos 17%, significativamente superior ao placebo (cerca de 3%), com aproximadamente uma em cada três pessoas a atingir reduções iguais ou superiores a 20% do peso corporal. Importa destacar que o perfil de segurança e tolerabilidade mostrou-se consistente com o já conhecido das formulações injetáveis, com taxas de descontinuação por efeitos adversos próximas do placebo (6,9% vs 5,9%), o que reforça a confiança na sua utilização clínica.

Paralelamente, também assistimos a avanços importantes com doses mais elevadas de semaglutido injetável. Os estudos STEP UP e STEP UP Diabetes, nos quais participei como investigadora e coautora dos respetivos artigos científicos, demonstram que a dose de 7,2 mg está associada a perdas de peso mais expressivas, atingindo aproximadamente 21% em pessoas com obesidade sem diabetes, enquanto em pessoas com obesidade e diabetes as reduções são também clinicamente significativas, na ordem dos 15%. Em ambos os estudos observaram-se benefícios adicionais consistentes no controlo metabólico e, numa análise post hoc, verificou-se que entre os respondedores precoces — participantes que atingiram perdas de peso superiores a 15% até à semana 24 — a perda de peso média atingiu cerca de 27,7% do peso corporal.

Portugal teve uma participação ativa nestes dois ensaios, com seis centros envolvidos e a inclusão de 34 doentes. Tive também a oportunidade de participar diretamente neste programa de investigação no Centro de Investigação da ULS São João, Porto.

Importa ainda recordar que os benefícios do semaglutido não se limitam à perda de peso. A formulação injetável de 2.4 mg semanal já demonstrou redução do risco de eventos cardiovasculares maior em pessoas com doença cardiovascular estabelecida e excesso de peso ou obesidade. Adicionalmente, foi recentemente aprovada para o tratamento da doença hepática associada à disfunção metabólica (MASH) em adultos com fibrose hepática moderada a avançada, excluindo cirrose. O semaglutido injectável 2.4 mg semanal encontra-se também aprovado para utilização em idade pediátrica, a partir dos 12 anos, para controlo do peso, o que reforça o seu papel ao longo de diferentes fases da vida.

A disponibilização de diferentes formulações — oral e injetável — e de várias doses permite uma abordagem mais personalizada, tendo em conta não só as características clínicas, mas também as preferências e necessidades individuais. Para muitos doentes, a possibilidade de um comprimido poderá representar uma opção mais aceitável e sustentável a longo prazo.

A obesidade é uma doença crónica, complexa e altamente prevalente, com impacto significativo na saúde individual e na sociedade. Como tal, exige estratégias terapêuticas eficazes, seguras e adaptadas à realidade de cada pessoa. Estamos, por isso, a acompanhar com grande expectativa estas e outras inovações, que poderão permitir tratar um maior número de doentes e individualizar a terapêutica de acordo com o perfil, preferências e necessidades de cada pessoa.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART