Por Carolina Marciale
O El Niño de 2026 tem chance superior a 90% de se confirmar entre agosto e outubro. A projeção concentra o maior risco de enchentes, enxurradas e deslizamentos em Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, exatamente na janela de setembro a dezembro. Porto Alegre segue como área de atenção máxima, com infraestrutura ainda em recuperação da tragédia de 2024.
O terceiro setor tem alguns meses de janela. A pergunta que me faço não é se vai ter desastre climático este ano. É se as organizações vão repetir o mesmo despreparo de comunicação que a enchente de 2024 já expôs.
O que ficou claro em 2024
Acompanhei de perto a resposta de organizações do terceiro setor durante as enchentes do Rio Grande do Sul. E o que ficou claro é que a comunicação que funcionou não foi a que reagiu rápido. Foi a que já tinha estrutura pronta antes da água subir: canal de doação verificado, porta-voz definido, protocolo de checagem de informação, parceria com imprensa já estabelecida.
A CUFA é um exemplo do que essa estrutura prévia viabiliza. Em poucos dias, a organização já tinha 13 centros de distribuição funcionando no estado, parcerias logísticas com empresas como GOLLOG e iFood para transporte de doações, e canal de arrecadação único e verificável divulgado desde o primeiro momento. Isso só é possível quando a capacidade de mobilizar parceiros e comunicar com clareza já existe antes da crise, não é construída durante ela.
Organização que só monta essa estrutura depois da crise instalada gasta os primeiros dias apagando incêndio, não ajudando. Enquanto isso, boato e desinformação correm mais rápido do que qualquer nota oficial, e quem mais perde com isso é a população que precisa da ajuda chegando rápido e certa.
A diferença entre as duas situações não é competência da equipe. É tempo de preparo.
O erro que se repete
Vejo o mesmo padrão se repetir organização após organização: comunicação de emergência tratada como resposta, não como infraestrutura. A decisão de quem fala, que canal usa, como verifica informação antes de divulgar, fica para o momento em que o desastre já está instalado.
Isso funciona quando a crise é pequena e local. Não funciona quando o cenário é o que as projeções climáticas de 2026 apontam: fenômeno de grande escala, atingindo território que já sabe, por experiência recente, o custo de não estar pronto.
Falta de estrutura prévia também tem custo financeiro. Doador hesita em contribuir para canal que não reconhece como oficial. Imprensa demora mais para confirmar informação sem porta-voz definido. Cada hora de atraso nessa engrenagem é hora a menos de ajuda chegando a quem precisa.
O ciclo que ninguém planeja
Tem um padrão que se repete em toda tragédia: doação sobe junto com a cobertura de imprensa, e desaba assim que a pauta sai do noticiário. A urgência da primeira semana garante recurso. A reconstrução, que leva meses ou anos, não tem a mesma atenção, mesmo sendo a fase que mais precisa de dinheiro.
Organização que não planeja comunicação para depois que a imprensa for embora fica refém desse ciclo. Passa a primeira semana bem financiada e o resto do ano tentando manter operação com recurso que não chega mais. Comunicação de risco preparada pensa nas duas fases: a arrecadação emergencial que a cobertura de imprensa impulsiona, e a manutenção de visibilidade e confiança que sustenta doação depois que a notícia sai do ar.
Quem paga mais caro quando a comunicação chega atrasada
Enchente não atinge todo mundo do mesmo jeito. No Rio Grande do Sul, pessoas negras e pardas representam 18,9% da população, mas são 32,3% entre os mais pobres do estado. Essa é a definição prática de racismo ambiental: quem já vive em território sem infraestrutura, moradia frágil e pouco acesso a saneamento é quem mais perde quando a água sobe.
Isso muda o peso da comunicação de risco. Não é só sobre informar rápido. É sobre garantir que a informação chegue às comunidades que historicamente são as últimas a receber alerta, apoio e recurso, e as primeiras a perder tudo. Organização que atua em território de favela e periferia carrega essa responsabilidade a mais: falar primeiro, falar claro e falar direto com quem está mais exposto ao risco.
O que fazer com o tempo que resta
Antes de setembro, toda organização que atua ou pode vir a atuar em resposta a desastre no Sul precisa ter definido cinco coisas: quem fala em nome da organização, qual canal de doação é oficial e verificável, como a informação é checada antes de sair, qual parceiro de imprensa já está alinhado, e quais empresas comprometidas com a sociedade já têm parceria firmada para logística, insumos ou recursos.
Esse último ponto faz diferença real. Nas enchentes de 2024, parte da capacidade de resposta rápida de organizações como a CUFA veio de parcerias já estabelecidas com empresas como GOLLOG, iFood, Unilever, Mercado Livre e ArcelorMittal, que colocaram estrutura logística, insumos ou recursos financeiros à disposição desde os primeiros dias. O iFood é exemplo do que parceria de longo prazo viabiliza: parceiro da CUFA desde a pandemia de 2020, esteve presente em praticamente toda emergência desde então, da Bahia a Petrópolis, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, funcionando também como canal de arrecadação de recursos financeiros direto no aplicativo, com o cliente doando no checkout do pedido. Empresa que já tem esse tipo de compromisso com uma organização não precisa ser convencida no meio da crise. Já sabe o que fazer e com quem falar.
Isso não se monta em cima da hora. Se monta agora, com a lição de 2024 ainda fresca e a previsão climática já em cima da mesa. Organização que espera o alerta de enchente para pensar nisso já perdeu a janela mais barata para agir.
Defendo que comunicação de risco que só nasce depois que a água já subiu chegou tarde. A que protege de verdade nasce enquanto ainda dá tempo de escolher.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
