Não é novidade que o Brasil é um país estratégico pro mundo na produção de alimentos. Mas o que talvez muitos não saibam é que a mineração tem um papel fundamental na produção agrícola e, consequentemente, na segurança alimentar. E em um cenário de crescimento populacional e crises políticas internacionais, o Brasil – e a Bahia – têm investido na busca por depósitos de substâncias utilizadas na melhoria do solo, para diminuir a dependência e também os custos da agricultura brasileira.
O assunto foi tratado durante o segundo episódio do projeto especial “Mineração para Todos: Do solo à palma da sua mão”, patrocinado pela Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), que teve como tema “O mundo invisível dos minerais que movem a sua rotina”. Doutora na pesquisa de fosfato, a Geóloga Maisa Abram, Chefe do Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), deu como exemplo a região oeste da Bahia, um dos maiores polos da agricultura no país, mas que tem um solo pobre em nutrientes.
“[Os terrenos do oeste] São basicamente areias, são arenitos. Então, a fertilidade é quase zero, em termos de crescimento de plantações. Então, tem que repor o fertilizante ali, porque senão nada se produz”, apontou. “Você tem que colocar ali o NPK – o nitrogênio, o fósforo, o potássio, que são nutrientes básicos para as plantas. Determinados plantios precisam mais de nitrogênio, ou mais fósforo, ou mais potássio… Essa parte da identificação, que é feita por outros órgãos, mas o recurso vem da mineração. Então, você precisa minerar”, detalhou a especialista.
Atualmente, a Bahia conta com a produção de fertilizantes fosfatados da Galvani, empresa brasileira que atua no chamado MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e tem áreas na região de Irecê e Angico dos Dias, distrito de Campo Alegre de Lourdes, no norte do estado.
Porém, Abram alerta que ainda é preciso investir mais para diminuir essa dependência externa, aproveitando a identificação de depósitos e alternativas internas. “A gente não tem uma produção de potássio. E geralmente a produção de nitrogênio vem das empresas do petróleo, que a gente está tentando reabilitar essas empresas produtoras de nitrogênio no Brasil, porque há uma competição de preços que vêm do material importado em relação à produção nacional. Então, é difícil fazer mineração. Você tem toda essa competitividade do mercado mundial”.
“DESASTRE INTERNACIONAL”
O país bateu recorde de importações de fertilizantes em 2025, com um total de 44,96 milhões de toneladas, que representam 80% do que é consumido pela produção brasileira – o que torna esse mercado sensível a preços internacionais, câmbio e questões geopolíticas. Questionada sobre um cenário hipotético em que o Brasil não tivesse mais acesso a essas importações, Abram explicou que as consequências seriam desastrosas não só para o mercado interno, mas também para o mundo inteiro.
“Seria um desastre a nível internacional. A nossa produtividade está totalmente relacionada ao uso de fertilizantes. Então isso teria um impacto no preço dos alimentos, a nível interno, e teria também um impacto a nível mundial. Nós somos um dos principais exportadores de alimentos, e isso também tem um impacto”, sugeriu. “Há alguns anos, a FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, colocou inclusive um desafio para o Brasil de aumentar a produtividade em mais 40%, em relação à necessidade que o mundo vai ter até 2050, considerando o crescimento da população mundial. Então isso realmente seria um desastre”, completou.
Este cenário demonstra como vira estratégico encontrar essas fontes dessas substâncias aqui na Bahia. Por isso, a CBPM e o SGB têm realizado estudos em conjunto para encontrar alternativas. “Nós somos acompanhados pelo Plano Nacional de Fertilizantes. Existe uma estratégia em termos de metas, do quanto a gente vai conseguir reduzir a nossa dependência, em nível de Brasil, ao longo dos anos até 2050. Dentro dessa estratégia, a geração de dados pré-competitivos para a questão da segurança alimentar é básica, é uma prioridade do governo, e a gente tem trabalhado nesse sentido”, compartilhou a especialista.
BAHIA COMO CASE DE SUCESSO
Um dos desafios para novos investimentos no setor, contudo, é o preço dos minerais, que pode transformar o projeto em algo que não seja viável comercialmente. Maria Alagia, Diretora de Negócios na Neogeo Geotecnologia, reforçou que isso torna muitos projetos de mineração de altíssimo risco, o que torna dados pré-competitivos gerados pelo SGB e pela CBPM estratégicos para a atração de investimentos para o setor, o que foi reforçado pelo diretor técnico da CBPM, Williame Cocentino.
MINERAÇÃO PARA TODOS
Na última segunda-feira (8), o Bahia Notícias lançou o projeto especial “Mineração para Todos: Do solo à palma da sua mão”, patrocinado pela Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), com o objetivo de traduzir a importância da pesquisa e da indústria mineral para o desenvolvimento do estado e para a atração de novos investimentos e de pesquisas científicas. A proposta é detalhar como a extração mineral tem um impacto real na vida da população, e desmistificar informações que muitas vezes cercam o tema.
Os episódios, gravados em formato de podcast, vão levantar o debate com especialistas sobre o cenário da Bahia e a posição estratégica do estado neste mercado. O primeiro deles tem o tema “Terras raras não são terras nem raras”, e está disponível no canal do Youtube do Bahia Notícias.
Para o bate-papo, o Bahia Notícias recebeu o presidente da CBPM, Henrique Carballal; o diretor técnico da companhia, Williame Cocentino; e o consultor especialista em terras raras, Antonio Vitor. Ao longo da conversa, os convidados explicam o que são terras raras, seu uso na indústria – e como elas chegam à rotina das pessoas -, além do que essa extração representa em relação a impactos ambientais, sociais e econômicos.
