Maio de 2026. Seis pessoas mortas pelas chuvas na Região Metropolitana do Recife. Entre as vítimas, soterradas em suas casas em regiões precárias, estavam dois bebês com menos de dois anos, uma criança de sete anos e duas mães. Não foi uma tragédia. Foi um desastre: um evento com causa conhecida e solução possível. Em maio de 2022, as chuvas já haviam deixado 133 mortos.
O Recife não chegou a essa condição por acaso. O IPCC aponta a capital pernambucana como a mais ameaçada pelo avanço do nível do mar entre todas as capitais brasileiras. Ao mesmo tempo, a Região Metropolitana do Recife é a mais desigual do país, segundo o Observatório das Metrópoles. Crise climática e desigualdade não se somam; elas se multiplicam. E quem paga essa conta são sempre as mesmas famílias.
No Recife, quem mora na Zona Sul se abriga e espera a chuva passar. Quem vive no morro ou à beira do canal muitas vezes não tem essa opção. As mais vulneráveis nesse cenário são as crianças e as mães que criam filhos sozinhas.
Mas o problema está longe de ser apenas local. No Brasil, 87,4% da população vive nas cidades, e 76% dessas pessoas enfrentam condições medianas, baixas ou precárias de vida urbana (IBGE, 2017). O déficit habitacional chegou a quase 6 milhões de domicílios em 2023, afetando diretamente 16,7 milhões de pessoas, enquanto outros 77,2 milhões vivem em moradias inadequadas. São quase 94 milhões de brasileiros sem acesso a uma moradia digna e segura (Fundação João Pinheiro, 2025).
Nesse contexto, eventos climáticos extremos passam a expor escolhas históricas de urbanização, habitação e infraestrutura. Há obras de contenção, sistemas de alerta e redes de abrigo, mas as respostas ainda são fragmentadas e insuficientes diante da dimensão do problema. Em geral, são limitadas à atuação isolada de cada município, embora a chuva não respeite fronteiras administrativas.
No âmbito federal, o Projeto de Lei 2225/2024, aprovado na Câmara e em análise no Senado, propõe diretrizes que integram infância, meio ambiente e prevenção a crises climáticas. É um avanço necessário, mas legislação sem implementação local tem alcance limitado. Estados e municípios precisam transformar essas diretrizes em ações concretas e coordenadas.
A solução estrutural exige a criação de um consórcio metropolitano capaz de coordenar investimentos em drenagem, habitação e infraestrutura de prevenção. No imediato, é urgente mapear áreas de extremo risco, remover famílias para moradias adequadas e recompor encostas e várzeas. Eventos climáticos extremos serão cada vez mais intensos e frequentes.
Habitação ocupa lugar central nessa agenda. Uma criança pequena passa, quando tem sorte, cerca de oito horas por dia na creche. Nas outras dezesseis, precisa de um lar digno, seguro e fora de área de risco.
2026 é ano eleitoral. Candidatas e candidatos ao governo de Pernambuco terão de responder a uma pergunta simples: qual é o seu plano diante da crise climática? Para que Riquelmy, Maria Helena, Pietro da Silva e suas mães não sejam apenas números de um desastre anunciado…
* Rogério Morais é secretário executivo da Rede Primeira Infância de Pernambuco (REPI-PE) e membro da Agenda 227. Rodrigo Loeb é arquiteto e urbanista, membro da Rede Nacional da Primeira Infância, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie e integrante da Agenda 227
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