Quarenta anos passaram desde a explosão no reator 4 de Chernobyl, mas há acidentes que não ficam arrumados na História. Continuam presentes, como um aviso silencioso, sempre pronto a regressar quando o mundo volta a entusiasmar-se com a mesma tecnologia.

A revista ‘Nature’ recupera esse fantasma num momento em que a energia nuclear vive uma nova corrida global e lança uma pergunta desconfortável: quando o próximo desastre chegar, estaremos realmente preparados?

Em 26 de abril de 1986, um teste mal conduzido na central soviética desencadeou o pior acidente nuclear da História. O que se seguiu foi uma sucessão de falhas, silêncio, confusão e medo. Milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas, vastas áreas agrícolas ficaram contaminadas e uma nuvem radioativa atravessou fronteiras, espalhando ansiedade muito para lá da Ucrânia. Para muitos, foi nesse momento que o nuclear deixou de ser apenas promessa de modernidade e passou a significar também risco extremo.

O acidente que o mundo nunca esqueceu

Chernobyl não foi apenas uma tragédia técnica. Foi um choque humano e político à escala continental. Famílias inteiras viram-se arrancadas das suas rotinas, populações viveram durante dias sem perceber a dimensão real do perigo e o mundo inteiro percebeu que uma falha num único ponto podia ter consequências durante décadas.

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Essa é talvez a marca mais profunda de Chernobyl: não ter sido um desastre fechado no tempo. Mesmo hoje, há zonas onde a vida continua condicionada pela herança daquele acidente. E isso ajuda a explicar porque o nome continua a carregar um peso próprio, quatro décadas depois.

Só que Chernobyl não ficou sozinho. Em 2011, Fukushima voltou a mostrar que os cenários improváveis não desapareceram. Um terramoto seguido de tsunami provocou outra grande catástrofe nuclear e trouxe de volta uma sensação que muita gente julgava enterrada: a de que basta uma combinação errada de eventos para expor fragilidades enormes num sistema que parecia seguro.

O regresso de uma energia que o mundo voltou a querer

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Apesar de tudo isto, o nuclear está novamente no centro das conversas sobre o futuro energético. O aumento da procura de eletricidade, a pressão para reduzir emissões, a instabilidade geopolítica e a corrida tecnológica estão a devolver protagonismo a uma fonte de energia que durante anos parecia condenada à suspeita permanente.

Há ainda um novo acelerador desta procura: a inteligência artificial. Segundo a Agência Internacional da Energia, o consumo elétrico dos centros de dados deverá quase duplicar até ao final da década, passando de 485 TWh em 2025 para 950 TWh em 2030. Noutra projeção da mesma agência, a eletricidade gerada para alimentar centros de dados sobe de 460 TWh em 2024 para mais de 1.000 TWh em 2030, com o nuclear a ganhar peso no final da década e depois disso.

De repente, a velha tecnologia volta a ser vendida como peça do futuro. E esse é precisamente o momento em que a memória de Chernobyl devia pesar mais, não menos.

Para muitos Governos e empresas, a lógica é simples: se o mundo quer mais eletricidade e menos carbono, o nuclear volta a parecer uma solução útil, ou pelo menos inevitável. A ideia de uma ‘renascença nuclear’ ganhou força e, com ela, regressou uma velha tentação: olhar para os grandes acidentes como capítulos superados, quase como se pertencessem a uma era mais rudimentar da tecnologia.

Mas é precisamente aí que mora o perigo.

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O risco que nunca desaparece

O problema dos grandes desastres é que raramente acontecem. E, por isso mesmo, os sistemas políticos tendem a preparar-se mal para eles. Exigem investimento contínuo, regras apertadas, manutenção rigorosa, equipas treinadas, fiscalização séria e uma disciplina que nem sempre combina com pressa, cortes ou entusiasmo industrial.

É fácil defender padrões máximos de segurança no rescaldo de uma tragédia. Muito mais difícil é mantê-los quando os anos passam, a memória enfraquece e a pressão para construir mais depressa cresce. A lição de Chernobyl, e depois a de Fukushima, não é apenas que os acidentes podem acontecer. É que a ideia de que já aprendemos tudo o que havia para aprender costuma ser o primeiro passo para a complacência.

A ‘Nature’ insiste neste ponto: os chamados eventos de baixa probabilidade e alto impacto são precisamente aqueles para os quais as sociedades menos gostam de se preparar. Parecem distantes, caros e improváveis, até ao dia em que deixam de o ser.

Planear o impensável

Talvez a parte mais incómoda desta conversa seja também a mais sensata. Se novos acidentes nucleares são possíveis, então a questão não é fingir que nunca chegarão. A questão é preparar-se para eles com seriedade. Isso significa exigir padrões rigorosos na construção, operação e manutenção das centrais, garantir transparência, reforçar a supervisão e tratar a segurança não como acessório, mas como condição básica.

Num tempo em que o nuclear regressa ao discurso do progresso, essa discussão pode parecer pouco entusiasmante. Mas é nela que tudo se decide. Porque quando um sistema destes falha, já não se discute apenas energia, estratégia ou clima. Discute-se território, saúde, água, agricultura, deslocações humanas e décadas de consequências.

O fantasma continua ali

Quarenta anos depois, Chernobyl permanece como uma pergunta aberta. Não apenas sobre o que aconteceu em 1986, mas sobre a forma como o mundo lida com riscos que prefere manter à distância. O nuclear pode voltar a crescer, pode ganhar novo fôlego e pode mesmo ter um papel importante nos próximos anos. Mas nada disso apaga o essencial: a tecnologia avança, a procura aumenta, a pressa regressa, e o pior cenário continua a existir.

É por isso que Chernobyl ainda importa. Porque não fala apenas de um desastre passado. Fala da facilidade com que o mundo, quando mais precisa de energia, se convence de que desta vez estará tudo sob controlo. E é precisamente nesse momento que a pergunta volta a impor-se: estaremos mesmo preparados para o próximo desastre nuclear?

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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