O terceiro dia de audiências da fase de instrução do processo criminal que apura as responsabilidades pelo rompimento da
barragem da Mina Córrego do Feijão
, em Brumadinho, foi marcado por relatos de sobreviventes e familiares das vítimas da
tragédia que deixou 272 mortos
.

Um dos depoimentos mais impactantes foi o de Sebastião Gomes, sobrevivente que estava na caminhonete que aparece em vídeo fugindo do mar de lama. Funcionário da Vale desde 2010 e operador de saneamento ambiental em Córrego do Feijão, ele contou que, no dia 25 de janeiro de 2019, ouviu uma explosão “como se fosse uma carga que tivesse explodido” pouco depois de deixar o refeitório e subir para uma pilha de carregamento.

“São sete anos, mas parece que foi ontem”, relatou, emocionado. Segundo ele, ao perceber a movimentação, alertou um amigo e viu colegas gritando e tentando escapar. “Quando entrei foi quando a lama chegou e tampou a gente. Por um milagre de Deus nós submergimos, até hoje não sei explicar porquê.” Depois, relatou ter ajudado na busca por sobreviventes e sinalizado para um helicóptero. “A minha dor é saber que embaixo tinha muita gente soterrada e a gente não podia fazer nada. No helicóptero, quando vi o restaurante, vi que tudo foi levado. Amigos, pais de família, irmãos”, disse.

Sebastião também afirmou que nunca participou de treinamento eficaz para casos de rompimento de barragens e lembrou o clima entre os trabalhadores após o desastre de Mariana. “Quando rompeu a barragem de Mariana, os meus amigos, você podia olhar para o rosto de cada um deles e ver o medo, a angústia”.

Outros depoimentos

Também prestou depoimento Fernando Henrique Barbosa Coelho, sobrevivente e filho de Olavo Coelho, uma das vítimas fatais. Operador e mantenedor mecânico à época, ele afirmou que participou de um simulado de salvamento, mas disse que não houve participação de representantes do governo de Minas ou da Defesa Civil, apenas de funcionários da Vale. Segundo Fernando, o pai alertou responsáveis sobre problemas na estrutura da barragem, mas não tinha autonomia para acionar autoridades. Ele relatou ainda que Olavo foi chamado para auxiliar a engenheira geotécnica Cristina Malheiros e trabalhou durante a madrugada tentando corrigir falhas antes do rompimento.

Já Deivid Arlei, marido de uma sobrevivente, contou que trabalhava como caseiro em uma fazenda próxima à barragem e morava no imóvel havia cerca de um mês quando ocorreu o desastre. A casa foi levada pela lama e a esposa ficou presa nos escombros, sendo retirada por vizinhos horas depois. Segundo ele, ela sente dores na perna até hoje e precisou de acompanhamento psicológico. Deivid afirmou que, na época, a Vale ofereceu assistência médica, hotel e aluguel social, e que depois firmou acordo com a empresa, sem novos contatos posteriores. O depoimento dele precisou ser interrompido por problemas técnicos e deve ser retomado.

As audiências integram a fase de instrução do processo, etapa dedicada à oitiva de testemunhas e produção de provas, antes da decisão sobre os próximos encaminhamentos do caso.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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