IDR de Caruaru/Léo Caldas/Arquivo DP

IDR de Caruaru (Léo Caldas/Arquivo DP)

A conhecida ‘Tragédia da Hemodiálise’, o caso de intoxicação que matou mais de 60 pacientes renais em Caruaru, no Agreste do estado, completa 30 anos neste mês. Foi em 20 de fevereiro de 1996 que o Diario de Pernambuco noticiou a primeira morte do caso que, devido à gravidade, chamou a atenção até da presidente da Associação Britânica dos Pacientes Renais, Elizabeth Ward. Até hoje, familiares de vítimas e sobreviventes lutam por indenização.

Nesta reportagem, o Diario relembra a história da ‘Tragédia da Hemodiálise’, que mudou a vida de muitas famílias de Caruaru e localidades próximas, e também os parâmetros de segurança em processos de hemodiálise em todo o Brasil.

Após o primeiro óbito, a frequência de mortes instalou um alerta e uma grande dúvida do que estava acontecendo com as vítimas, todas pacientes do Instituto de Doenças Renais (IDR) de Caruaru. A situação, no entanto, não foi descoberta imediatamente, muito em função do ineditismo do caso.

Cerca de 140 pacientes foram contaminados, quando realizavam o procedimento de hemodiálise, por uma toxina denominada microcistina-LR, produzida por cianobactérias (algas verde-azuladas) contidas na água usada nos procedimentos. Foi o primeiro registro no mundo de contaminação nessas circunstâncias.

“Esse foi o primeiro caso desse tipo de contaminação, apesar da alga que causou isso ser uma alga encontrada em diversos lugares do mundo. Existiam alguns relatos de intoxicação por pessoas que bebiam da água, que tinham contato, tomavam banho, qualquer coisa desse tipo, e desenvolviam uma doença hepática. Mas isso nunca tinha sido descrito numa unidade de hemodiálise”, explicou ao Diario o nefrologista Amaro Medeiros, que tratou vários pacientes vítimas da intoxicação na época.

Profissionais de todo o planeta estiveram em Caruaru para colaborar com as análises do caso. Cerca de um mês após a primeira morte, surgiram as primeiras conclusões sobre a contaminação da água usada na hemodiálise. “Era época de seca. A gente recebeu a notícia de que uma das clínicas do Caruaru recebia água do reservatório Tabocas. Essa alga é azul esverdeada, e na época da seca, se concentra na água. Não tinha água para quase ninguém, eles usaram essa água”, relembra Dr. Amaro.

A contaminação por microcistina causa danos hepáticos, que em nada se relacionam à insuficiência renal. “A contaminação, na realidade, não tinha nada a ver com o rim. O grande efeito dela era no sistema neurológico, dores musculares e no fígado”, afirma o médico.

A hemodiálise é um processo de tratamento para pacientes com quadro de insuficiência renal, que pode ser causado por vários motivos. “A diálise funciona como um rim, retirando substâncias que o rim não está conseguindo tirar do organismo. O paciente permanece bem, mas tem que repetir isso no mínimo três vezes por semana, quatro horas por dia. É como uma filtragem do sangue”, esclarece Dr. Amaro.

Para esses pacientes, a diálise é importante para manter a saúde enquanto a chance de transplante de rim não aparece. “Eu posso manter meu doente na diálise, produzindo socialmente, tendo uma vida interativa com a sociedade, com a família, enquanto ele espera a chegada de um rim para transplantar. Isso significa dizer que a diálise salva a vida”, explica o nefrologista.

Após a Tragédia da Hemodiálise, foram determinadas mudanças no padrão de segurança de prática do procedimento.

“Com o exemplo de Caruaru, a grande mudança dentro da diálise aconteceu quando o Ministério da Saúde publicou uma portaria que obriga todas as unidades de diálise do Brasil a utilizar um tratamento chamado Osmose Reversa. Modificou completamente o desempenho da diálise. Outras modificações aconteceram, nas membranas que se utilizam para filtragem e tudo mais, mas o grande evento foi a mudança na forma de tratar a água”, aponta.

Segundo o nefrologista, à época, já existia preocupação com o tratamento de água, porém mais simples. “Existia uma preocupação com água naquela época. As clínicas eram obrigadas a ter um tratamento de água. Só que era bem mais simples, uma questão de não ter disponível todas as formas de tratamento, e a um custo que fosse possível. No Brasil todo, era usado um deionizador: uma coluna que tirava parte de substância, outras tiravam os cátions e os íons, e uma coluna de carvão que filtrava”, detalha.

A luta de um sobrevivente

Quitério Silva, de 51 anos, foi um dos pacientes que sobreviveu à intoxicação, mas até hoje lida com uma Hepatite C, sequela da contaminação. Natural de Tacaimbó, no Agreste, ele fazia hemodiálise desde os 16 anos, três vezes por semana no IDR. Aos 21 anos, foi intoxicado. Ele conta ao Diario como tudo aconteceu.

“Antes da tragédia era normal. Em fevereiro de 96 começou a morrer gente e ninguém sabia o que era. No meio de março vieram descobrir que era o problema da água. Tiveram que desenterrar um bocado de paciente para saber o que tinha acontecido”.

Ele relembra como foi continuar com o procedimento em meio às mortes e dúvidas.

“A gente ficava ansioso, apreensivo, porque estávamos no mesmo processo das pessoas que estavam morrendo. A gente tinha que ir. Ia ou morria. Ou você ia (para a hemodiálise) para morrer, ou se ficasse em casa, ia morrer, porque não podia ficar sem tratamento. Eu pegava carona com uma menina de Pesqueira, e me lembro quando ela entrou na máquina (de hemodiálise) do meu lado. Assim que ela entrou, teve uma parada e morreu. Eu fiquei muito nervoso nesse dia”.

Quitério, como mais de 100 outros pacientes, foi contaminado, e como poucos, sobreviveu. Ele ficou internado por mais de dois meses no Hospital Barão de Lucena, na Iputinga, Zona Oeste do Recife. Durante o período, perdeu um amigo próximo que também era tratado no IDR, uma das perdas mais dolorosas, ele relata.

“Toda vez que lembramos de hemodiálise, ou fala-se em tragédia, dá muita angústia no coração da gente, porque perdemos muitos amigos. Não gosto de lembrar. Dá um nervosismo, vontade de chorar. Eu nunca me esqueci do meu amigo Cirilo, foi um dos pacientes que me ajudou muito, me dava muita força. Na época eu era de menor, passei minha juventude toda fazendo hemodiálise e ele era o único que me aconselhava, para eu não me desesperar, dizia que um dia eu ia sair daquele sofrimento. Infelizmente ele não resistiu, faleceu lá no Recife”, menciona.

Atualmente, Quitério não realiza mais hemodiálise, pois conseguiu um transplante de rim em 2013. Após todos esses anos, a única coisa que falta a respeito da tragédia é a indenização, obtida na Justiça, que nunca foi devidamente recebida. Ele diz que os sobreviventes e muitas famílias estão “esquecidos”.

“É uma luta. Ainda espero que seja cumprido o que a Justiça pede. Sei que a Justiça daqui da terra é muito falha, mas a de Deus não. Espero que eu que um dia seja resolvido. Não vai trazer a nossa saúde de volta e nem vai trazer a vida dos pacientes que infelizmente faleceram, mas para eles aprenderem a trabalhar direito na área da saúde. Temos que lutar para não sermos esquecidos, como estamos sendo”, expressa.

A luta de uma família

Jéssica Borges tinha cinco anos quando perdeu o pai, José Francisco Borges, que faleceu aos 30, em decorrência da intoxicação. Ele ficou mais de um ano internado no Hospital Barão de Lucena, onde os pacientes contaminados eram tratados. Segundo ela, José Francisco viajava de Bezerros, onde ainda mora a família, para o IDR, em Caruaru, três vezes por semana. Apesar da pouca idade, ela diz se lembrar do pai, e de quando ele adoeceu.

“Foi uma situação tão traumática, mas eu lembro bastante. Tudo piorou com a contaminação. Ele ia e voltava só, era tranquilo. Nesse dia minha mãe estranhou porque ele chegou acompanhado do cobrador de ônibus, já com dificuldade de enxergar. Começou com uma dor de cabeça, depois teve uma crise de riso, suando muito, algo incontrolável. Depois a dor de cabeça retornou, só que de uma forma mais forte”, compartilha.

O pai de Jéssica foi socorrido para o IDR, e encaminhado para o Barão de Lucena, no Recife. A jovem conta que foi um momento delicado, pois a mãe dela veio para a capital acompanhar José Francisco, e ela e a irmã, ainda crianças, ficaram longe dos pais. “Foi uma situação muito complicada. Minha mãe assumiu a causa, e eu e minha irmã nós ficamos pela casa de parentes, vendo minha mãe raramente”.

A família não conseguiu sequer enterrar José Francisco. Ele faleceu enquanto a mãe de Jéssica estava em Bezerros, visitando as filhas. Elas só souberam da morte um tempo depois.

“Eu não consegui ver o meu pai morto para dar a ele um funeral decente. Quando ele faleceu, estava com tuberculose e hepatite tóxica. Minha mãe tinha vindo para me ver com minha irmã e ele ficou com uma prima. Naquela época não tinha telefone com tanta disponibilidade e a gente só ficou sabendo em outro dia, por uma ligação de orelhão, que ele tinha falecido e tinha sido sepultado. Então, não teve velório, a gente não conseguiu ver. Foi terrível”, relembra, emocionada.

Justiça

Ainda em 1996, os sócios do IDR, os médicos nefrologistas Bráulio Coelho e Antônio Bezerra Filho, foram condenados a indenizar as vítimas e famílias. Eles foram absolvidos na vara criminal em 2002. Apesar da condenação, poucas famílias e sobreviventes conseguiram ser indenizados. Alguns familiares e vítimas ainda lutam para conseguir a indenização. O impasse na justiça é em conseguir bens dos sócios para realizar a penhora. É o caso de Quitério e Jéssica.

As lembranças nunca foram embora. Hoje, aos 34 anos, Jéssica conta que esse é o principal motor da luta por justiça pelo que aconteceu com o pai. “Eu lembro de tudo dele. Acho que é isso que alimenta essa minha vontade tão grande de justiça, porque eu lembro da voz dele, do pedido que ele fez para minha mãe, da minha última visita a ele”.

O processo foi arquivado, mas ela não desistiu. Há alguns anos, entrou novamente na justiça, mas o andamento é lento, ela explica. O sentimento de, mesmo após tanto tempo, continuar lutando, é de “impunidade”, segundo Jéssica.

“Meu pai infelizmente se foi por conta de irresponsabilidade, eu gostaria muito que a justiça se compadecesse para que não ficasse no esquecimento. Porque quando a gente vai atrás da indenização, não é para trazer nenhuma vida de volta, mas uma forma de fazer a justiça. Eles foram condenados e nada foi feito, é como se nada tivesse acontecido. A vida para eles continuou da mesma forma, já a nossa, não. Eu falo pela minha mãe, pela minha irmã, foram anos de sofrimento e até hoje é assim. Crescer sem um pai dilacerou minha vida, faz muita falta mesmo. A gente queria que a justiça fosse feita para poder colocar um ponto final nessa história e seguir. Só houve consequência para as vítimas e para as famílias, não para os culpados”, desabafa.

IDR

O Diario não conseguiu localizar a defesa dos sócios do IDR, Bráulio Coelho e Antônio Bezerra Filho.

 

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *