Em 30 de junho de 1908, uma explosão colossal rasgou o céu da Sibéria central, em uma das regiões mais isoladas do Império Russo. A força do evento foi tamanha que cientistas estimam ter sido até mil vezes mais poderosa do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima, em 1945. Em poucos segundos, centenas de quilômetros quadrados de floresta foram queimados e cerca de 80 milhões de árvores acabaram tombando. O episódio entraria para a história como o Evento de Tunguska, nome dado em referência ao rio Podkamennaya Tunguska, próximo ao local da explosão.

Considerado o maior evento de impacto já registrado na Terra, Tunguska permaneceu por décadas envolto em incertezas. Hoje, a maioria dos cientistas acredita que a explosão foi causada por um objeto espacial — provavelmente um asteroide — que entrou na atmosfera terrestre e se desintegrou antes de atingir o solo. Ainda assim, ao longo do século 20, inúmeras teorias alternativas surgiram, algumas bastante ousadas, tentando explicar um detalhe crucial: a ausência de uma cratera de impacto.

Uma intensa luz azul

Na manhã de 30 de junho, por volta das 7h17 no horário local, moradores de vilarejos próximos à bacia do rio Tunguska relataram ter visto uma intensa luz azul cruzando o céu. Segundos depois, um estrondo ensurdecedor sacudiu a região. Uma onda de choque poderosa se espalhou por dezenas de quilômetros, estilhaçando janelas, derrubando pessoas e provocando tremores semelhantes aos de um terremoto.

B. Semenov, um camponês que vivia na área, relatou na época que o céu parecia ter se partido em dois e que um fogo gigantesco surgiu sobre a floresta. Segundo informações do portal All That’s Interesting, o calor foi tão intenso que Semenov sentiu como se suas roupas estivessem pegando fogo. Logo em seguida, ouviu-se um impacto violento, e ele foi lançado a vários metros de distância. Relatos semelhantes se espalharam por toda a região.

Momentos de pânico

O pânico foi tão grande que donos de duas minas de ouro locais chegaram a telefonar um para o outro, acusando-se mutuamente de terem provocado uma explosão. Apesar da magnitude do evento, apenas três mortes humanas foram oficialmente registradas, em grande parte devido ao isolamento da região. A fauna, porém, sofreu de forma brutal. Um membro do povo indígena tungus, chamado Luchetkan, contou que um parente cuidava de renas na área atingida no momento da explosão. Muitas foram encontradas carbonizadas, outras simplesmente desapareceram.

Anos mais tarde, o mineralogista soviético Leonid A. Kulik registraria cenas de devastação absoluta: galpões haviam sido reduzidos a nada, objetos metálicos tinham sido totalmente derretidos e roupas e utensílios queimados até se tornarem irreconhecíveis.

Repercussão não foi imediata

Apesar disso, o evento não gerou grande repercussão imediata, nem mesmo dentro da própria Rússia. Foi somente em 1927, quase vinte anos após a explosão, que a primeira expedição científica chegou ao local. O atraso se deveu tanto à dificuldade de acesso quanto a acontecimentos históricos como a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa.

Liderada por Kulik, a equipe encontrou uma paisagem desconcertante: uma área de destruição em formato de borboleta que cobria cerca de 830 milhas quadradas. Milhões de árvores havia sido derrubadas. Algumas, porém, permaneciam em pé, com galhos arrancados e troncos severamente danificados.

Origem extraterrestre?

Desde o início, os pesquisadores suspeitaram de uma origem extraterrestre para o fenômeno. No entanto, não conseguiram identificar se a causa teria sido um asteroide ou um cometa. Para complicar ainda mais, nenhuma cratera foi encontrada. A explicação mais aceita é que o objeto tenha explodido a vários quilômetros de altitude, liberando energia suficiente para devastar a superfície sem atingir diretamente o solo. Pequenos fragmentos foram encontrados décadas depois, mas eram minúsculos demais para conclusões imediatas.

Essa ausência de evidências claras abriu espaço para teorias alternativas. Em 1973, físicos da Universidade do Texas sugeriram que Tunguska poderia ter sido causado pela passagem de um buraco negro primordial pela Terra — hipótese essa que explicaria tanto a falta de cratera quanto a intensa luz azul observada. Mas outros pesquisadores, como o astrofísico Wolfgang Kundt, propuseram explicações terrestres, como uma gigantesca erupção de gás natural vinda das profundezas do planeta, associada a rochas vulcânicas do tipo kimberlito.

Ideias ainda mais excêntricas não faltaram: desde a aniquilação de antimatéria até um suposto acidente envolvendo um OVNI, passando por um experimento fracassado do lendário “raio da morte” atribuído a Nikola Tesla.

Novos elementos

Em 2013, porém, um estudo publicado na revista Nature trouxe novos elementos para o debate. Pesquisadores reanalisaram pequenas rochas coletadas na região nos anos 1970 e identificaram minerais típicos de meteoritos ricos em ferro, como troilita e schreibersito. A análise microscópica indicou que os fragmentos tinham origem extraterrestre, reforçando a hipótese de que um asteroide foi o verdadeiro causador da explosão.

Mesmo assim, vale dizer, o caso Tunguska está longe de ser unanimidade: enquanto alguns cientistas defendem que um cometa gelado explicaria melhor a ausência de uma cratera e a forma da devastação, outros continuam a sustentar teorias menos convencionais.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.

Source link

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *