Em 25 de janeiro de 2019, uma avalanche de lama tóxica tomou a cidade de Brumadinho (MG) após o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração da Vale. A tragédia, que deixou 272 vítimas, segue moldando a paisagem da região, mesmo anos depois.

Um novo estudo mostra que a contaminação do solo na bacia do rio Paraopeba continua prejudicando a restauração da flora da região —e que, por isso, essa recuperação não acontecerá sozinha.

Metais como ferro, manganês e níquel impactam a germinação e o crescimento das plantas, especialmente espécies maiores, impedindo que a vegetação volte ao seu estado original.

Segundo informações do governo de Minas Gerais, o desastre jogou 7,8 milhões de m³ de rejeitos na calha do ribeirão Ferro-Carvão, o mais próximo da barragem da Vale, e outros 2,2 milhões de m³ atingiram a calha do rio Paraopeba.

Publicado no início do mês na revista científica Environmental Pollution, o artigo é assinado pelos pesquisadores Jerusa Schneider, Jefferson Picanço e Maíra Silva, do grupo de pesquisa Criab (Conflitos, Riscos e Impactos Associados a Barragens), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

A análise faz parte da pesquisa de doutorado de Silva, que está estudando a contaminação ambiental das áreas de mata ciliar da chamada zona quente, a mais próxima e mais impactada pelo rompimento da barragem.

“O rompimento da barragem traz profundos impactos à qualidade do solo e da vegetação”, diz a cientista. “Esses elementos tóxicos reduzem drasticamente a emergência das plantas do banco de sementes do solo, prejudicando a velocidade e a sincronia da germinação.”

O banco de sementes é uma reserva biológica que funciona como um estoque, de onde vão brotar novas mudas. Esse reservatório é uma parte fundamental da resiliência e restauração natural de ecossistemas.

Para o estudo, amostras de solo foram coletadas em Brumadinho em 2022, durante o período de cheia, considerado estratégico por favorecer a mobilização dos rejeitos. Foram definidos cinco pontos de coleta, incluindo um ponto de controle localizado rio acima da área impactada, distante da barragem.

O material foi levado para a Unicamp, onde foi conduzido um experimento de 202 dias. Nesse período, foram monitoradas temperatura, umidade e emergência das plantas.

“As plantas até emergem, crescem, mas depois acabam morrendo”, afirma Silva. “Isso indica um efeito de contaminação aguda e reforça a preocupação com a regeneração e a restauração ecológica.”

O ferro, em especial, forma uma camada sobre a semente, dificultando a germinação e facilitando a entrada de outros elementos tóxicos, especialmente para espécies de maior porte. Acabam resistindo apenas as gramíneas, que têm mecanismos para absorver o tipo de ferro presente no rejeito, além de alta capacidade de dispersão.

Com isso, a paisagem fica homogeneizada, o que pode levar a uma perda de biodiversidade ainda maior.

A bióloga acrescenta que em visitas recentes à região estudada a situação continuava a mesma —ou seja, a vegetação não conseguiu se recuperar por conta própria, como aconteceria em locais não contaminados.

“Nesses locais praticamente só tem gramíneas, não tem nenhuma espécie arbórea. E essas áreas continuam erodindo”, conta ela. De raízes mais curtas, espécies como gramas e capins não conseguem reter a terra das margens. “A erosão acaba com todo o sistema, tanto o rio como a mata ciliar”.

Natural do Vale do Ribeira, da comunidade Ivaporunduva, no município de Eldorado (SP), Maíra Silva se tornou, em 2017, a primeira quilombola a receber o título de mestre pela Unicamp.

“Eu venho de uma região que foi impactada pela mineração de chumbo. Foram 50 anos de depósito desse material no rio Ribeira”, diz, explicando como surgiu seu interesse no seu campo de pesquisa.

“Ambientes poluídos precisam de um olhar diferenciado. Essas substâncias podem afetar inclusive os serviços ecossistêmicos, que são fundamentais para as populações do entorno”, afirma Silva.

Ela espera que o estudo recém-publicado possa ajudar quem trabalha com reflorestamento e restauração a pensar estratégias que tenham um bom desempenho nesse tipo de ambiente.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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