O antropólogo Clifford Geertz propõe olhar realidades complexas por duas lentes: a experiência-próxima, dos significados vividos por quem está dentro, e a experiência-distante, dos conceitos analíticos de quem observa de fora. Em analogia, essa chave ajuda a entender por que “acabar com os fósseis” parece simples quando visto à distância, mas ganha nuances quando nos aproximamos do chão das decisões políticas e econômicas.
De longe, o diagnóstico é direto: os combustíveis fósseis respondem por cerca de 80% das emissões globais de gases de efeito estufa. E a ciência é clara — centenas de especialistas independentes subsidiam as negociações climáticas para manter o aquecimento sob controle.
De perto, as perguntas são duras: haverá renováveis suficientes para a demanda energética crescente? Existem recursos renováveis para uma transição justa que alcance todos os países? Quem paga essa conta?
Nas COPs, o avanço tem sido gradual. A COP27 tentou incluir o fim dos fósseis no texto final, mas o que se consolidou foi a redução gradual do uso de carvão sem captura e a eliminação de subsídios ineficientes aos fósseis. Na COP28, houve um passo histórico ao adotar a formulação “afastar-se dos combustíveis fósseis nos sistemas de energia, de maneira justa, ordenada e equitativa”, com metas de triplicar a capacidade de renováveis e dobrar a eficiência energética até 2030; acelerar esforços para reduzir o carvão sem captura e eliminar subsídios ineficientes; e menções a tecnologias de zero/baixas emissões, à captura e armazenamento de carbono (CCS) e a “combustíveis de transição”.
O ritmo, porém, depende de dinheiro. Na COP29, o texto final estipulou que o financiamento climático será de US$ 300 bilhões por ano até 2035, muito aquém dos US$ 1,3 trilhão necessários para manter a meta de 1,5 °C ao alcance. Já na COP30, presidida pelo Brasil, houve uma tentativa de meio-termo: foi proposto criar um “roteiro em direção ao fim dos combustíveis fósseis”, que, entretanto, não entrou no texto final por oposição liderada pela Arábia Saudita, com apoio de China, Rússia e Índia.
Realidades Nacionais e o Impasse dos Combustíveis Fósseis
As realidades nacionais ajudam a explicar o impasse. A Colômbia anunciou que organizará uma conferência para eliminação dos fósseis com apoio de mais de 80 países. A China abriga os maiores parques eólicos e solares do planeta, mas ainda recorre ao carvão para atender seu alto consumo enquanto caminha para a neutralidade climática em 2050. A Europa sofreu com a interrupção do gás russo durante a guerra com a Ucrânia. O Brasil autorizou estudos para exploração de petróleo na foz do Amazonas, pressionado pelo declínio da produção de petróleo e seus impactos no PIB.
E onde entra o Espírito Santo nesse tabuleiro? O estado tem tido papel protagonista na implementação de políticas públicas que garantem segurança energética e aceleram na transição energética para uma economia de baixo carbono. Fez o dever de casa ao criar um fundo soberano com recursos de royalties do petróleo, ao incentivar parcerias público-privadas para ampliar o uso do gás natural e fomentar a produção de biometano. Além disso, o estado detém a terceira maior reserva de hidrocarbonetos do país — musculatura para liderar uma transição pragmática, com responsabilidade climática e foco na competitividade.
Entre junho e novembro deste ano tive a honra de coordenar o grupo de trabalho do evento Sustentabilidade Brasil 2025 sobre o papel do gás natural e do biometano na transição energética do Espírito Santo, unindo representantes do poder público e setor privado. Ao final do processo foi entregue uma Carta para a presidência brasileira da COP 30, contribuindo com o Mutirão Global, um chamado lançado no evento para a colaboração de toda a sociedade no combate às mudanças climáticas. (acesse a íntegra da carta com exclusividade aqui)

Gás Natural e Biometano no Espírito Santo: Resultados e Perspectivas
Os resultados já aparecem. Em operação recente, a substituição do carvão por gás natural na indústria evitou a emissão de 20 mil toneladas de GEE em apenas um mês, segundo a ARSP. A expansão da infraestrutura de gás irá viabilizar os corredores sustentáveis, permitindo o abastecimento de caminhões com biometano e gás natural em todas as principais rodovias do estado. A substituição da lenha pelo gás natural para secagem do café capixaba, além das vantagens ambientais, aumentará a competitividade do café nos mercados internacionais. E, ainda mais importante, a primeira usina de biometano do estado, da Marca Ambiental, já se conecta diretamente à rede de gás, com outras três planejadas — sinais de um caminho que integra eficiência, renováveis e gases de baixo carbono.
Usar o gás como combustível de transição não é contradição; é ponte. Ele reduz emissões frente a óleo combustível, diesel e carvão em usos industriais, no transportes e térmicos, confere flexibilidade para integrar mais energias eólica e solar e ajuda a preservar a competitividade da economia capixaba.
Para que essa ponte leve ao destino desejado, alguns critérios são essenciais: controle rigoroso de metano em toda a cadeia; prioridade para substituir combustíveis mais intensivos em carbono; contratos e infraestrutura compatíveis com uma trajetória de substituição gradativa do uso do gás; e reinvestimento disciplinado em renováveis, e mecanismos de neutralização das emissões. Assim, a experiência-próxima capixaba, com geração de empregos, arrecadação e, em especial com segurança energética — se alinha ao rumo global e acelera o que tem sido acordado nas COPs.

Felipe Ramaldes
Especialista em Sustentabilidade da BMJ Consultores e mestre em sociologia política com ênfase na área socioambiental
