No início de janeiro, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) publicaram, na revista científica Next Research, um estudo que traz o panorama dos principais desdobramentos ambientais do maior desastre ecológico do Brasil ao longo da última década. O rompimento da barragem do Fundão, em Minas Gerais, em novembro de 2015, matou 19 pessoas e mais de 600 ficaram desabrigadas nos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

Cerca de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério percorreram mais de 650 quilômetros pelo Rio Doce até atingir o Oceano Atlântico, espalhando destruição pelo caminho. O estudo apresenta a revisão de artigos científicos indexados nas bases Scopus e Web of Science que reúnem dados de monitoramento de parâmetros físico-químicos e de indicadores biológicos em ecossistemas de água doce, estuarinos, marinhos e terrestres afetados pelo desastre. A pesquisa avalia os impactos ambientais de longo prazo e o estado de recuperação dos ecossistemas uma década após o evento.

Em novembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) homologou o Acordo de Reparação Integral do Rio Doce, que prevê o valor de R$ 170 bilhões para ações de reparação e compensação pelo desastre ambiental na Bacia do Rio Doce. Do montante, R$ 100 bilhões serão repassados aos entes públicos – União, estados de Minas Gerais e Espírito Santo e municípios que aderirem ao acordo – para aplicação em projetos ambientais e socioeconômicos, incluindo programas de transferência de renda.

Outros R$ 32 bilhões serão direcionados à recuperação de áreas degradadas, remoção de sedimentos, ao reassentamento de comunidades e pagamento de indenizações às pessoas atingidas, que serão realizados pela Samarco, empresa responsável pela barragem. Contudo, mesmo após uma década do desastre, ainda persistem incertezas quanto aos potenciais impactos negativos dos rejeitos de mineração sobre a população local, que depende do Rio Doce.

De acordo com um dos autores do trabalho, o professor Fabiano Thompson, do Instituto de Biologia (IB) da UFRJ, os resultados indicaram evidências de concentrações elevadas de metais nos sedimentos do Rio Doce, favorecimento de superbactérias, bioacumulação em organismos aquáticos, contaminação do solo em áreas adjacentes ao rio, além de potenciais riscos crônicos à saúde das comunidades locais.

Embora tenha sido observada a recuperação parcial da qualidade da água e dos sedimentos durante os anos, muitos ecossistemas permanecem sob forte pressão. “As principais ações que precisam ser adotadas até 2045 incluem o cuidado com as pessoas, abertura de novas oportunidades de inclusão produtiva (por ex., educação, cultura e saúde), esforços sustentados de restauração ambiental e a incorporação de análises do microbioma como indicadores de recuperação”, explica Thompson.

Os cientistas destacam que estudos conduzidos com amostras de sangue e urina da população local revelaram a presença de contaminação por níquel (Ni), arsênio (As), cobre (Cu), alumínio (Al) e chumbo (Pb), possivelmente associada aos rejeitos de mineração. Para os autores do artigo, há necessidade de aprofundar as investigações envolvendo amostras humanas, a fim de compreender melhor os potenciais impactos à saúde.

“Quais são os efeitos do acúmulo de metais no sangue de ribeirinhos, populações tradicionais e da população em geral? Qual é a situação atual da água tratada distribuída à população? Como as assessorias técnicas independentes têm atuado na orientação da população em temas relacionados à saúde, ao bem-estar, à educação e à cultura? São todas questões a serem levantadas em pesquisas futuras”, revela a pesquisadora Marcelle Cordeiro, da Uerj.

Hoje, o Brasil tem mais de 900 barragens, sendo 74 com alto risco de colapso, conforme dados do Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração (SIGBM).

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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