A frustração foi o sentimento do servidor público Dannyel Delgado, 36, ao chegar na praia de Tambaú, em João Pessoa, na manhã de terça-feira (6). Ele viajou para passar três semanas de férias na capital paraibana, mas se deparou com o mar com uma mancha escura proveniente de esgoto.
“É uma tristeza a gente encontrar João Pessoa com esgoto na praia. Volto meio constrangido para o Rio Grande do Sul, de saber que não está tão legal”, afirmou o turista, que não arriscou nem um mergulho no mar coberto por sedimentos.
Um dos principais destinos turísticos do Nordeste, João Pessoa voltou a registrar descarte irregular de esgoto no mar nos primeiros dias de 2026. Praias de regiões turísticas da cidade —como Tambaú, Manaíra e Cabo Branco—, tinham a água escura e presença de resíduos sólidos entre as ondas.
O episódio foi registrado justamente no momento em que a capital paraibana está apinhada de turistas, com uma ocupação hoteleira superior a 90%, segundo dados de Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Paraíba (ABIH-PB).
Longe de ser um episódio pontual, o descarte irregular de esgoto nas praias é um problema que se repete há pelo menos duas décadas na cidade, conhecida por ter praias urbanas próprias para banho durante a maior parte do ano.
Na última semana de dezembro, todos os pontos de medição das praias da cidade estavam próprios, segundo análise de balneabilidade realizada pela Sudema, órgão ambiental do estado. A medição da primeira semana de janeiro ainda não foi divulgada.
Diante do cenário de contaminação registrado nesta semana, o Ministério Público da Paraíba convocou uma reunião para debater o tema. Enquanto isso, representantes do município e do estado trocam acusações sobre o descarte irregular.
O prefeito Cícero Lucena (MDB) afirmou nesta terça-feira (6) que o lançamento do esgoto no mar é causado por deficiências no sistema sanitário da cidade, de responsabilidade da Cagepa (Companhia de Água e Esgotos da Paraíba), que pertence ao governo estadual.
“Se há transbordo desse material em função da incapacidade da estrutura hoje implantada na cidade de João Pessoa para absorver seu crescimento, obviamente que tem que ser responsabilizada a Cagepa”, afirmou.
A estatal, por sua vez, acusa a Prefeitura: “Como está a limpeza das galerias pluviais? E a fiscalização das ligações clandestinas de esgoto na drenagem? Esse problema de ligação clandestina é histórico”, disse o o presidente da Cagepa, Marcus Vinícius Neves.
O embate de responsabilidades entre prefeitura e governo escalou em meio a tensões políticas, resultado do rompimento Lucena e o governador João Azevêdo (PSB).
Prefeito da capital em segundo mandato, o prefeito deve ser candidato ao governo da Paraíba neste ano. A tendência é que ele tenha como adversário o atual vice-governador, Lucas Ribeiro (PP), candidato escolhido por Azevêdo para sua sucessão.
Há cinco anos, quando João Pessoa enfrentou o mesmo problema de descarte irregular de esgoto nas praias, governador e prefeito eram aliados e cumpriram agenda conjunta prometendo resolver o problema.
Na ocasião, ambos anunciaram investimentos em tecnologia para identificar ligações clandestinas entre redes de esgoto e drenagem pluvial.
A promotora de Meio Ambiente de João Pessoa, Cláudia Cabral, afirma que o problema é complexo, multifatorial e requer uma atuação institucional integrada, com responsabilidades compartilhadas e complementares.
“Quando um ente transfere a responsabilidade ao outro, o problema ambiental continua, e quem sofre é a população, o meio ambiente marinho e a imagem da cidade”, afirmou a promotora.
Ela destacou que empresas também realizam ligações irregulares, lançam esgoto diretamente em galerias pluviais ou fazem conexões indevidas. Os responsáveis pelo descarte podem criminalmente.
O Ministério Público elaborou um relatório técnico com um diagnóstico do problema, que deve ser divulgado nos próximos dias. O documento foi produzido por um engenheiro ambiental que apurou as causas do lançamento irregular de esgoto nas praias.
Dados do Instituto Trata Brasil apontam que João Pessoa possui uma cobertura de esgotamento sanitário que chega a 78% dos domicílios.
*Folhapress (Maurilio Junior)
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