Nunca um Governo se alimentou tanto de narrativas e perceções como o do primeiro-ministro Luís Montenegro. Aquilo que mais o preocupa é alimentar uma determinada narrativa, mesmo que seja falsa ou só parcialmente verdadeira, para construir uma perceção. Acima de tudo, está empenhado em criar a ideia de que agora é que existe um controlo implacável da imigração, mesmo indo contra a racionalidade económica e social e a decência do respeito pelos outros.
Ao mesmo tempo, tem usado a imigração e a teoria das “portas escancaradas” para ocultar a sua incapacidade para resolver alguns dos problemas mais sérios do país, como o desastre quotidiano na saúde ou a falta de casas acessíveis e a escalada tresloucada da especulação imobiliária.
E assim o Governo fechou as portas à imigração, dificultou a reunificação familiar e o acesso à nacionalidade, encostou os imigrantes à parede, é incapaz de resolver o caos nos aeroportos, foi no engodo da proibição das burkas e ainda adotou um discurso nacionalista do Portugal mais português, que basicamente é uma infantilidade à luz da razão e da nossa história colonial e de emigração.
Não está em causa, como nunca esteve, a necessidade de regulação dos fluxos migratórios e saber quem entra no país. Essa é apenas uma das obrigações elementares de qualquer Governo, que não precisa de bodes expiatórios. O inaceitável é que use a pressão social e institucional da xenofobia e da burocracia como instrumentos de submissão dos migrantes, esmagados pela forma sobranceira como são tratados, fazendo-os desesperar e cair na incerteza quanto ao seu futuro devido à morosidade, custos e exigências para a sua regularização.
Por isso, ao contrário do que diz, o Governo está pouco preocupado com a dignidade dos imigrantes, que serão as maiores vítimas se o pacote laboral for aprovado. Se estivesse realmente preocupado, faria muito mais por quem alimenta a nossa economia, combatia o racismo e a xenofobia que se disseminou e investia devidamente em recursos humanos e formas de organização na AIMA que resolvessem com celeridade os processos pendentes, para evitar que milhares de pessoas tenham de passar horas sem fim, durante a noite e depois de um dia de trabalho, muitas vezes ao frio e à chuva, sujeitando-as a um calvário com a maior das indiferenças.
